1) Romário fez o milésimo gol do campeonato. Nada de mais como espetáculo. Foi mais um chute rasteiro, com a marca do célebre autor: o pé alcança a bola, no tempo certo, nem antes, nem depois do que exige a precisão. Romário não passará à história como um matador, um Gerd Muller, conhecido como ''Der Bomber'' ou um BuitragueÀo, chamado de ''Abutre'', pelo estilo inclemente de predador.
Romário não trata a bola como arma de fogo. Talvez, por isso, seja impróprio chamá-lo de artilheiro. Ele nega essencialmente a teoria de que o ato de fazer um gol corresponde, simbolicamente, ao ato de matar. Com o tempo, Romário passou a fazer do gol, não um rito de guerra, mas um ato do mais singelo afeto. O gol de Romário não suscita transbordamentos. Tem qualquer coisa da unção que canoniza. O gol de Romário pede reverência e silêncio. Não é sem razão que ele se benze, quando perde um gol. Pra ele, fazer gol é devoção. Perder é pecado.
2) Chega ao fim a etapa preliminar do Campeonato Brasileiro. Os quatro primeiros, agora, têm a vantagem de jogar em seu próprio terreiro. É o caso de perguntar: será mesmo primazia a condição de anfitrião, com a torcida intolerante a pegar no pé da equipe, por tudo e por nada? É bem verdade que a hostilidade do torcedor ocorre, com mais frequência, em duas cidades: Rio e São Paulo. Não é a toa que os grandes times andam preferindo jogar bem longe de suas torcidas. Longe dos olhos, longe da agressão. É diferente com os dois Atléticos, o Mineiro e o Paranaense, que recebem, sempre, o ruidoso alento de suas multidões. No Paraná, a torcida passa o jogo inteiro, cantando o hino do chamado Furacão da Baixada. Como tenho andado às voltas com os hinos dos clubes, reproduzo o quarteto mais fervoroso do hino do Atlético-PR: ''A tradição, vigor sem jaça/ nos legou o sangue forte/ Rubro-negro é quem tem raça/ e não teme a própria morte!''
3) O Flamengo está penando. Sua sorte está em jogo na última rodada do campeonato nacional. O drama rubro-negro faz lembrar a seleção que só foi respirar na última partida das eliminatórias. Um jogo que, pelo peso reles do oponente, a Venezuela, teve um quê de repescagem. Mas, justiça seja feita: o time do Flamengo até que tem mais presença que a seleção. Contra o São Caetano, domingo passado, vi-o, o tempo todo, mais insinuante, mais ameaçador que o próprio líder. Não merecia perder. É aquela história: deve haver mau olhado travando as pernas do Flamengo. Jamais diria que alguém dá azar, mas não estou muito longe de admitir que as velhacarias do presidente Santos Silva podem estar lançando fluidos negativos sobre a equipe. Noutros tempos mais místicos do futebol, havia um prelado da Igreja de São Judas Tadeu, em Laranjeiras, que, nas vacas magras, borrifava água benta na cabeça dos jogadores do Flamengo. Era o padre Góis. É hora de proteger a alma do Flamengo. É bom não esquecer a verdade lapidar de Nelson Rodrigues: ''quem vence e perde os jogos é a alma.''
4)Uma enquete interessante do Sportv: Por que não há um só jogador do São Caetano na Seleção Brasileira? A maioria acha que, sendo o conjunto o ponto forte do líder, seria difícil destacar esse ou aquele jogador. Aparentemente, a opinião pode até colar. Eu, por mim, prefiro a idéia de que não há ninguém do São Caetano na seleção pela singela razão de que a seleção é menos brasileira do que se imagina. Como já escrevi: vejamos o bloco dos classificados: em cerca de 100 jogadores, não há um só que seja titular da seleção. Belletti, do São Paulo, e Gilberto Silva, do Atlético Mineiro, os dois únicos convocados são meros suplentes. O resto é jogador vindo de fora, com sotaque europeu no seu, por isso mesmo, desfigurado futebol.
A lógica dos técnicos brasileiros é que, se o cara joga em time europeu, tem que ser craque. E não é bem assim. A Europa nunca foi, nem será paradigma pra uma escola tão peculiar como a brasileira. Vou morrer afirmando que o estilo europeu descaracteriza o jogador brasileiro.
Vamos, com urgência, abrasileirar a seleção brasileira.

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