Na Grande Área - Armando Nogueira
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de novembro de 2001
NA GRANDE ÁREA <br> Armando Nogueira 
1) Gente, a barra do futebol brasileiro está pra lá de pesada. Os clubes se afundam na pindaíba, as CPIs já descobriram mil falcatruas, Pelé até o Pelé! está correndo risco de sair mal na foto das criancinhas, Romário paga do próprio bolso pra jogar no Vasco, Rodrigo, do Botafogo, jura que há dez meses não recebe a parcela mais gorda de seus salários.
Se alguém acha que é pouco, então, ouça lá: esta semana, ouvi, de mano, o presidente do Fluminense, David Fischel, dizer que há torcedores que vendem a cambistas os ingressos que recebem, de graça, dos clubes. Os agraciados que não faturam nos bilhetes devem formar na banda não menos podre que vai ao estádio pra hostilizar o time.
2) Todo mundo desanca o Vampeta por não estar jogando nada no time do Flamengo. É chamado de chupa-sangue. Ora, ora, o Vampeta tem um contrato pelo qual se obriga a jogar futebol, em troca de um ganho mensal. Passa-se o primeiro mês, o segundo, o terceiro, e o Flamengo não honra a sua parte. O Vampeta fica chateado. Quem não fica? Eu, no começo da minha carreira, trabalhei num jornal que, no fim do mês, 'pagava' a redação com batedeiras elétricas, colchões de molas e outros petrechos domésticos descolados em permutas publicitárias. Era uma humilhação. Acabei deixando o jornal.
Na história do Vampeta, há até quem cite o Edílson, como exemplo de alguém que também não recebe salário e, ainda assim, dizem, está lá, suando a camisa com um ânimo de amador.
Bom, o Edílson deve ter suas razões pra não esquentar sua vaga cabecinha. Aliás, esse é conhecido por alguns arroubos de novo rico. Há dias, ele contava, às gargalhadas, que tomou um prejuízo de dois milhões de reais na roubada do Boi Gordo. Rico ri à-toa... Eu conheço outra que vale a pena contar: um dia, no saguão de um hotel, em São Paulo, ele, Edílson, apalpava o pescoço e dava pela falta de um cordão de ouro, perdido, possivelmente, entre o quarto e o elevador. Falava do sumiço da jóia, pela qual pagara 2 mil reais, mas, numa boa, rindo muito. Foi, então, que Luxemburgo, dando uma de inspetor de alunos, obrigou-o a voltar pra procurar o cordão, por sinal, logo encontrado, no chão do elevador.
Se alguém achar que tudo isso é sinal de desprendimento, certamente, desconhece o que seja grossa alienação. Assim, Edilson se revela um deslumbrado. Ele talvez não saiba que o dinheiro desmiolado costuma ser maldito.
3) Por quê, então, o jogador lesado em salários não vai embora, com o passe livre no bolso? O direito é líquido e certo. O clube atrasou três meses, cessa o vínculo e o jogador está desimpedido. Ah, amigos, o diabo é que, na prática, a teoria é outra coisa. Vocês se lembram do Reidner? Saiu do Botafogo, livre como um passarinho. Tão livre quanto o Júnior Baiano e o Juninho Pernambucano que ganharam na Justiça do trabalho ações semelhantes contra o Vasco da Gama.
Todos foram perversamente ignorados pelos outros clubes do Brasil. O Júnior Baiano teve que se mandar pra China, onde, nas horas vagas, bate pernas solitárias, na Praça da Paz Celestial. O Juninho, craque de respeito, se arranjou pela França. Deve estar comendo muito bem. O Odvan, que acaba de deixar o Vasco, também com passe livre, esse, coitado, com a bola sem brilho que Deus lhe deu, pode acabar, jovem e taludo, ganhando a vida, dia e noite, na boléia de uma Kombi de aluguel.
Pra quem achar que não é bem assim, participo que o presidente Fischel, do Fluminense, entrevistado por mim, recentemente, reconheceu, visivelmente constrangido, que há um pacto não-escrito no Clube dos Treze, pelo qual clube da primeira divisão não pode dar qualquer chance a qualquer jogador que apareça com passe livre ganho por atraso de pagamento.
Eis aí uma realidade que bem merece uma boa reflexão do ministro Almir Pazianotto e seus pares do Tribunal Superior do Trabalho.


