Na Grande Área - Armando Nogueira
SÃO CAETANO, UM EXEMPLO
O time do São Caetano, meus amigos, é o seguinte: mal principia o jogo, ele já está na área, fustigando o adversário. Seja ele quem for. O Grêmio, em pleno Olímpico, viu-se acuado, com um minuto de partida. E é assim o tempo todo. No jogo de domingo, o time do Grêmio bem que respondia, com veemência, as estocadas do visitante. E era, justamente aí que o São Caetano ficava mais temível ainda.
O São Caetano surpreende todo mundo. A gente vê aquela equipe fazer chover e não acredita no que está vendo. Culpa do chamado olhar metafórico. Quando está jogando o Grêmio, o Flamengo, o Inter, enfim, um clube histórico, você se deixa impressionar, de saída, pelo uniforme. A camisa flameja cores, irradia tradição, desperta reverência. Não falo só de quem está na arquibancada. Quem está no campo há de viver a mesma sensação. Aí, entra o time do São Caetano. Você olha e não vê a camisa cintilar. Como diria Adélia do Prado: olho camisa e vejo camisa, mesmo...
É preciso ser muito cético pra não dar importância aos elementos místicos que regem os passos de um time de futebol. Pois o São Caetano lidera um campeonato de 28 equipes, a maioria imortalizada de louros e de lendas, e lidera com todo merecimento. Joga bem, joga bonito, transborda confiança. Ninguém joga solitariamente. Se o Adãozinho estiver com a bola, logo aparecem por perto dois ou três companheiros, insinuando-se como opções de jogada. É a velha filosofia de Gentil Cardoso: quem desloca recebe, quem pede tem preferência. Acontece que só um time realmente confiante comporta-se como o São Caetano. O que se vê, nesse futebol de mil cobranças, é o jogador passar a bola adiante, o mais depressa possível. Bola de fogo, queimando os pés do medo em pessoa.
Esse o perfil do time brasileiro mais vertiginoso da atualidade. Um time que não tem camisa, nem legenda, não tem torcida, nem padrinhos, nem patrocinador de alto coturno, não tem passado, não tem um só jogador de renome, não tem pose, mas que tem sido admirado pelo futebol esfuziante que vem jogando há dois anos, aos olhos descrentes de tanta gente.
XÔ, ENERGÚMENOS!
O time do Fluminense está em quarto lugar no campeonato. Situação mais respeitável, sinceramente, não existe. Pois a torcida ''Pó de Arroz'' não pensa assim. Vaiou domingo, porque a equipe empatou com a Portuguesa. Como se a Portuguesa fosse um time qualquer. Como se o próprio Fluminense não fosse um dos mais cotados a conquistar o título de campeão brasileiro.
Venho de outros tempos. Tempos em que o torcedor era, em qualquer circunstância, a alma de um time. O cidadão ia ao estádio por pura devoção. Se, por qualquer razão, não fosse, em pessoa, ver seu time jogar e o time perdesse, certamente, passaria a noite, consumido pela culpa mais atroz. No estádio, roía as unhas, blasfemava dos céus, descompunha o adversário. Em pé, na arquibancada, chutava com o atacante, rebatia com o zagueiro, fazia defesas milagrosas com o seu goleiro. Era a encarnação do próprio time. Queria ver em campo luta, muita luta, porque ele, lá em cima, lutava bravamente. Suava frio. Se o time perdesse por indisfarçável falta de empenho, aí, sim, a torcida inteira se vingava, xingando, vaiando, queimando bandeira, enfim, soltando os cachorros.
Hoje, o torcedor é de uma intolerância inquietante. Junta-se em grupo e assoma o estádio como que movido por um sentimento de confrontação com seu próprio time. O jogador não tem o direito de errar um passe ou um chute. Se o gol tarda a sair, tome vaia. Se o adversário faz um gol, o treinador é execrado como um réprobo. Em vez de alento, o jogador passa a receber os insultos mais cabeludos.
No final do jogo com a Portuguesa, no Maracanã, o atacante Magno Alves pedia um pouco mais de afeto. Eu nem pediria tanto. Que tal um pouco mais de respeito? Um pouco mais de consideração. Afinal, o jogador de futebol não é ser de escuridões. É uma criatura que também tem coração, que ali está cumprindo um dever profissional.
Quem insiste em ver futebol sem um pingo de generosidade, o melhor, mesmo, a fazer, é sumir do mapa. O estádio não é lugar pra energúmeno nenhum ficar desovando seus tenebrosos instintos em cima de ninguém.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Uma pergunta à Comissão de Arbitragem da CBF: por que diabos os juízes não vigiam, severamente, jogadores que se limitam a fazer falta em cima de falta? A regra permite que um certo jogador passe o jogo inteiro a truncar jogadas com recursos do mais deplorável antijogo?
- Há pouco tempo, dei uma nota, contando que Ricardo Teixeira tinha ido a La Paz ver Brasil x Bolívia. Enganei-me redondamente. Teixeira, na ocasião, estava em Cleveland, cuidando do coração avariado. Faço a correção da notícia, atendendo a esclarecimento prestado por um verdadeiro time de advogados: exatamente, onze, que assinam a banca Couto de Assis-Advogados s/c. Como se vê, a vida moral do presidente da CBF está bem protegida.
- A hora e a vez do australiano Hewitt tardou mais do que se imaginava. O garoto, agora primeiro do ranking, já vem jogando uma barbaridade não é de hoje.





