Na Grande Área - Armando Nogueira
OS CANTOS DO FUTEBOL
Meus colegas da Rádio Bandeirantes estão tocando pra frente uma boa idéia: descobrir qual o mais bonito hino de clube, no futebol brasileiro. Nas primeiras sondagens, já pintam três preferidos: o do Flamengo, o do América, do Rio, e o do Grêmio. Ninguém pediu a minha opinião, mas quero confessar, de cara, que, entre todos, gosto mais do hino do Fluminense. A melodia é um poema musical. Em ritmo de marcha-lenta, então, chega a dar arrepios de emoção. Ouvi-la, como já ouvi, ao piano, pelo tricolor Arthur Moreira Lima, é puro deleite.
O hino do Flamengo, é bom esclarecer, nada tem a ver com a marchinha criada por Lamartine Babo. O canto oficial do clube é de autoria de um rubro-negro histórico, o radialista Paulo Magalhães. O refrão, espécie de grito de guerra é: 'Flamengo, Flamengo, tua glória é lutar! Flamengo, Flamengo, campeão de terra e mar!' Já a marcha de Lamartine, realmente vibrante, termina com um verso arrebatador: 'Uma vez Flamengo, Flamengo até morrer!' Foi essa que caiu no gosto popular.
O hino do Grêmio tem um autor tão ilustre quanto Lamartine. Tudo que brota do coração de Lupicínio Rodrigues vem repassado de sentimento. A cadência do hino é marcial. Por sinal, bem diferente da clave marcadamente sentimental do compositor brasileiro que melhor entoa uma dor de cotovelo. Quantas lágrimas de minhas jovens desventuras terei carpido nas canções de amor de Lupicínio!
O segundo mais querido aos ouvintes da Bandeirantes vem sendo, até agora, o do América F.C., clube que sempre foi o mais simpático do Rio. Paixão de Max Nunes, de Giulite Coutinho e de José Trajano, que o chama, ternamente, de Ameriquinha. Mas tem uma coisa: a melodia, linda, foi toda ela chupada de um dobrado da marinha norte-americana. Da primeira à última nota da partitura. Eu que sempre considerei Lamartine um dos maiores compositores da MPB, pra mim, é inexplicável que, tendo feito canções maravilhosas pros principais times da cidade, Lamartine não tivesse tido inspiração pra cantar justamente as glórias de seu clube: 'Hei de torcer, torcer, torcer / Hei de torcer até morrer, morrer, morrer / Porque a torcida americana é toda assim / A começar por mim.'
Há muitos anos, estava eu passeando de carro pelo interior da França. Lá vou, rádio ligado, sonhando com um bom bordeaux. De repente, ouço o hino do América, tocado por uma banda. Fiquei entre surpreso e orgulhoso. Me lembrei, logo, do Maracanã lotado, a delirar com as diabruras do atacante Manequinho, um crioulinho saci pererê do time do América, cujo ataque era chamado de Tico-tico no Fubá pelo estilo de jogo repicado, serelepe, que bem lembrava o chorinho de Zequinha de Abreu.
O locutor diz que acabamos de ouvir o dobrado tal, de não sei quem. Falou lá o nome de um autor americano. Pensei no ato: Ladrões! Roubaram o hino do América! Quando chegar ao Brasil vou denunciar o plágio descarado. Fiquei injuriado. Naquele estado de espírito, eu seria capaz de declarar guerra aos Estados Unidos.
Já no Brasil, descobri, que o espertalhão tinha sido o Lamartine: o hino do América era mesmo... da América. Quem me confirmou o plágio foi Sargentelli, sobrinho querido de Lamartine que sabe tudo sobre o titio. O Lalá chupou mesmo o dobrado. Mas e daí? Há quanto tempo os gringos afanam coisas nossas e nunca devolveram nada. Desde então, canto, com um certo tom de forra a deliciosa introdução da marchinha americana:
-Trá-lá-lá-lá-lá-lá
-Trá-lá-lá-lá-lá-lá
-Trá-lá-lá-lá-lá!
PASSA A BORRACHA EM TUDO
O futebol brasileiro vai à Copa do Mundo, na Ásia, em 2002. Foram precisos l8 jogos, duas gestações, pra seleção da CBF conquistar uma das quatro vagas do continente sulamericano. A vitória por 3 a 0, contra a Venezuela, desata no coração brasileiro uma sensação, que eu não diria de contentamento e sim de alivio. Nunca o futebol brasileiro fez papel tão inexpressivo quanto nessas eliminatórias. Portanto, o que se impõe, agora, é passar a borracha em tudo que aconteceu até aqui.
Sabemos quanto a vitória é alienante e embriagadora. Pois, então, é melhor que esqueçamos o triunfo de ontem contra uma seleção aprendiz. Não há mais tempo a perder. A Copa está aí mesmo. Faltam apenas seis meses e o Brasil não tem uma equipe formada. Em dois anos, foram quatro treinadores e algumas centenas de jogadores. O que temos não pesa na balança, não passa na peneira, como diria o poético samba de Monsueto.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- A família Paulo Azeredo escreve queixosa de mim. Acha que fui injusto, contando, na tevê, uma historinha que denotava racismo do saudoso presidente do Botafogo, dr. Paulo Azeredo. Contei que ele só teria aprovado a contratação do mulato Chicão porque João Saldanha, de pura malandragem, tinha garantido que o dito Chicão era louro, de olhos azuis. Não inventei nada. Reproduzi, apenas, o que me contara o então diretor de futebol do Botafogo, Renato Estelita o qual, por sua vez, dizia ter ouvido a história do próprio Saldanha. É possível, até mesmo provável, que a história tenha saído da cabeça do João que, todos sabem, era fertilíssima. Eu, por mim, sempre tive a melhor impressão do austero Paulo Azeredo.
- Enfim, me escreve um atleticano que não me agride e até me agradece por ter eu elogiado, em nota destacada, o time atual do Atlético Mineiro. Volta e meia, bate na minha tela uma descompostura me acusando de odiar o Atlético Mineiro. Ainda bem que o tempo me forrou de paciência pra não chutar o pau da barraca.
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Colaborou Andréa Escobar
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