Na Grande Área - Armando Nogueira
VÍRUS PÉ DE CHUMBO
A seleção de Felipão, que tão mal representa o futebol brasileiro, joga, hoje, a penúltima cartada eliminatória da Copa do Mundo. Se não passar pela Venezuela, hoje, só resta uma esperança: a repescagem. Muito confortável, como se vê, a situação da equipe que a FIFA contempla com o segundo lugar no ranking mais descarado que o esporte jamais conheceu.
A partida de logo mais, em São Luis do Maranhão, empurra pra amanhã todos os jogos do campeonato brasileiro. Tomara que não se repita a semana passada, quando os fluidos irrespiráveis da seleção contagiaram a rodada. Domingo, não houve um só jogo de alto nível. Ruindade pega fácil, até pela televisão.
Se não, vejamos:
1 - O São Caetano derrotou o Corinthians, mas não jogou o que vinha jogando. Certamente, Picerni e companhia viram a seleção desmazelar-se contra a Bolívia. Na partida com o Corinthians, o time do São Caetano parecia afetado pelo Felipema Colaris, um vírus que se espalha pelo corpo do jogador, causando prolongadas crises de miopia que se manifestam primeiro, estranhamente, nos pés; depois, os pés se arrastam pelo campo como se carregassem um peso insuportável. O mal é vulgarmente conhecido como Pé de Chumbo.
2 - Os demais times, sobretudo os que lideram, também jogaram abaixo de suas virtudes. Assim foi o Atlético-PR, assim foi o outro Atlético, o de Minas, assim também se deu com o Fluminense. Nenhum deles jogou titicas. Só pode ter sido a Síndrome de Lago de Titicaca, que tem tudo a ver com o tal vírus do Pé de Chumbo.
3 - Pra não ser radical, eu diria que, domingo, só escaparam dois times: o do Santos e o do Grêmio, assim mesmo, com exibições apenas aceitáveis. Nada, porém, que chegasse ao padrão de excelência das rodadas anteriores. O campeonato vinha dando gosto. Belos gols, jogo franco, peito aberto, jogadas de efeito. De repente, domingo, reapareceu a retranca. Influência maléfica de quem? Quem jogou contra a Bolívia com seis zagueiros?
4 - Impossível, nesse quadro negativo, deixar de falar do Palmeiras. O time que liderou o campeonato durante nove rodadas, hoje, se engalfinha com Bahia, Santos e Ponte Preta, todos na casa dos 35 pontos, separados por uma ou duas tênues vitórias. Nas vacas gordas, o time palmeirense era comandado pelo técnico Celso Roth que acabaria execrado e demitido por uma falange da arquibancada. A direção do clube, por coerência na insensatez, deve pedir à sua mórbida facção que trate de arranjar um novo técnico pra evitar uma possível catástrofe.
5 - Uma questão pra Comissão de Arbitragem da CBF, que, por sinal, tem feito uma boa renovação no quadro de juízes: o goleiro Helton, do Vasco, derruba, na pequena área, um atacante do Atlético Mineiro, que estava a pique de marcar o gol. O árbitro Loebeling marca pênalti. Helton não leva sequer cartão amarelo. No jogo Flamengo-Portuguesa, o goleiro Julio César faz a mesma coisa com o atacante Ricardo Oliveira, da Portuguesa. Só que fora da área. O árbitro Gaciba da Silva puxa o vermelho e expulsa o goleiro rubro-negro. Onde está a coerência? Ou arbitragem terá que ser sempre assim: cada cabeça uma sentença?
6 - Deu a louca na cartolagem do São Caetano: Jair Picerni terá novo contrato, com direito a dizer quanto quer ganhar. Um lance simpático seria, por exemplo, Picerni pedir o salário de Romário, que ganha, no Vasco, a ninharia de 850 mil reais por mês.
DE PAPO COM A BOLA...
Tenho visto muita gente boa de bola no campeonato brasileiro. Gosto do agudo senso de gol que tem o atacante Kleber, do Atlético-PR. Chuta com precisão, seja de pé direito, seja de pé esquerdo. Kleber, com a bola, na grande área, é vendaval. No time do São Caetano, tem o Anailson, tem o Esquerdinha, tem o Adãozinho, cada um mais arisco que o outro. No Goiás, quem manda no jogo é o Araújo. Sabe das coisas. É o tipo do jogador que faz e acontece sem um pingo de papagaiada. O Araújo, no Goiás, é como o Ramon, no Atlético Mineiro: joga o jogo, com incansável dinamismo e eficiência. O Preto, do Bahia, também, me agrada.
Quem me encanta, como ninguém, é esse garoto do São Paulo, o Kaká. Desse já se pode dizer, em voz alta, que é craque. O guri lembra o estilo clássico que se via nos campos românticos de Heleno de Freitas, de Sastre, de Schiaffino. Gente de rara clarividência com a bola nos pés. Dirão os realistas que estou enchendo demais a bola do rapaz. É a minha opinião, talvez nem seja a verdade de outros amantes do futebol. Se o futebol de Kaká, amanhã, virar vinagre, lamentarei, de coração. Será uma pena. Não é toda hora que nasce um jogador, assim, tão rico de virtudes técnicas. A bola de Kaká não tem arestas. Rola bonito, seja no passe, seja no chute. A bola dele tem um QI de respeito. A bola de Kaká tem majestade.
Nas minhas fantasias, imagino, mais ou menos assim, a relação entre o jogador e a bola: se o cara é craque, assim como Kaká, quem primeiro fala é a bola, que pergunta, com reverência: pra onde você quer que eu vá? Diga que eu vou! Se o cara é bom, mas não chega ser um craque, é ele que pergunta à bola: pra onde é que você quer ir? Por fim, se o cara é um perna-de-pau, simplesmente, não há diálogo. A bola não quer papo. E, então, será, o que Deus quiser...
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Colaborou Andréa Escobar
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