Na Grande Área - Armando Nogueira
UMA CENA PIEDOSA
Está em todos os jornais: a seleção chegou da Bolívia e não foi hostilizada no aeroporto. Novidade? Pra mim, não. Ninguém se sente co-responsável por essa equipe. A seleção brasileira é uma coisa, a seleção de um único brasileiro é outra. Porque confundir um time montado pelos caprichos de uma pessoa só com outro que deve exprimir a vontade unanime de um povo? Se a equipe que perdeu na Bolívia não é a nossa, porque então chorar por ela? Quem pariu Mateus que o embale.....
Sei de pessoas, muitas, que nem ligaram a televisão na noite do jogo. Outros desligaram no primeiro tempo. Um amigo me contou, rindo, que sentou na poltrona, com vinte minutos, apagou: ''...quando acordei, já estava três a um.''
Não sabe esse meu bom amigo o que ele deixou de ver enquanto ressonava. Perdeu, por exemplo, a cena do coordenador Antônio Lopes: o jogo ainda longe de terminar e o homem já se valia dos céus pra salvar a seleção. Cabeça baixa, o rosto sucumbido entre as duas mãos, Lopes era o próprio símbolo de uma seleção desvalida.
O futebol tem me dado alegrias, tristezas, angústias, euforias. Minha alma deve à seleção momentos de plenitude, sem os quais minha vida teria sido um mero empate, sem gols. Mas, francamente, minha modesta biografia não merecia ver a estampa do medo no gesto de um comandante da seleção brasileira. E saber que a fonte do pavor era apenas um modesto time boliviano que nem cartão de visitas tem. Justiça seja feita, uma coisa a equipe boliviana tem: brio.
Foi demais pro coração de um pobre marquês de Xapuri.
A SELEÇÃO LANCE POR LANCE
1 - A entrevista de Felipão, depois do baile altiplano na seleção, foi tão inútil quanto as que ele tem dado jogo pós jogo. É conversa fora o tempo todo. Teatrinho puro. Os jornalistas fingem que perguntam, ele finge que responde. Nunca vi nada mais inócuo. Em nome do bom-gosto, devia ser abolida.
2 - Me digam, por favor: alguém se recorda de uma jogada, uma única jogada, que justificasse a presença de Rivaldo em campo durante 90 minutos? Sou todo ouvidos a quem queira me refrescar a memória.
3 - Felipão acha que nós, cronistas, não entendemos nada de futebol. Por mim, encaixo a carapuça. Não entendo nada, mas gosto muito. Com mulher, sou assim também: não entendo nada, mas gosto muito. Já em relação à equipe do Felipão, a coisa é um pouco diferente: não entendo nada e nem faço questão de entender; não gosto nada, nem faço questão de gostar.
4 - Zé Roberto foi trazido lá dos confins da Alemanha só porque, disse o treinador, o moço tem fôlego de sete gatos. Seria, portanto, peça primordial pra jogar em cidade de ar rarefeito. Zé Roberto foi barrado ainda no primeiro tempo. Ninguém na coletiva ousou pedir uma explicação ao treinador. Depois, os coleguinhas ficam melindrados porque o Felipão diz que a imprensa não entende nada de futebol.
5 - Um provérbio que o futebol herda da era Felipão: mais vale chamar pra seleção um Elber notoriamente machucado, do que um Romário, inteirinho.
6 - Serginho é meia-cancha no Milan, mas em La Paz, saiu jogando de lateral. Em dez minutos, trocou de posição com Zé Roberto que, na Alemanha, nunca joga de lateral. Técnico de futebol não se sente obrigado a justificar publicamente suas decisões. Diz que só presta contas a seu patrão, Ricardo Teixeira, que, como todos sabem, não quer ouvir falar de futebol e tem raiva de quem fale.
7 - Luiz XIV, o rei de França, interpelado pelo Parlamento, costumava responder, do alto de sua coroa: ''O estado sou eu!'' Assim é o Felipão: ''A seleção sou eu!''
8 - Que a altitude prejudica o rendimento físico de qualquer um que viva na planície é verdade científica irrefutável. Mas outra verdade igualmente irrefutável é que o Brasil já venceu lá, muitas vezes, chegando a La Paz, em cima do laço. A terceira verdade, essa comprometedora, é que a taxa de talento da seleção é tão baixa quanto a taxa de oxigênio na Cordilheira dos Andes. Já vi muito time brasileiro ganhar na Bolívia, com déficit de glóbulos vermelhos.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
O futebol espanhol está deixando no chinelo o italiano: o jogo Barcelona-Real Madri foi um encantamento. Pena que tivesse havido um lance grosseiro em que o brasileiro Rochemback entrou de travas na perna de um adversário. Pegou um amarelo que bem poderia ter sido vermelho. - Ricardo Teixeira não tem saúde cardíaca pra depor na CPI do futebol, mas se mandou pra La Paz ver Brasil-Bolívia. Futebol e ar rarefeito, pode; prestar contas à CPI não pode. Quanta desfaçatez! - Todo apoio aos senadores Álvaro Dias e Geraldo Althoff. É deles que pode vir o sopro de moralização do futebol brasileiro. - O Programa Armando Nogueira de amanhã, segunda-feira, tem uma entrevista que fiz com o técnico Tite, do Grêmio. Eis aí uma pessoa que sabe o que diz e que ainda tem muito a dar ao futebol brasileiro. No final do papo Tite faz uma doação para a campanha Natal Sem Fome, pela qual o Sportv está mobilizado. Tite me entregou uma camisa autografada por todo o time do Grêmio que será leiloada pelo bem da campanha. - Imagino a felicidade de certa dama pelas conquistas esportivas de seu filho. Minha querida amiga Liana está em águas de rosa por Luciano Gomide que acaba de sair campeão da temporada 2001 da Formula-3 dos Estados Unidos, o que não é pra qualquer um.
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Colaborou Andréa Escobar
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