DA CABEÇA AOS PÉS


O futebol brasileiro joga sua sorte, hoje, em La Paz, contra a Bolívia. Desaponta um pouco chegar à penúltima partida, de um total de 18, sem ter certeza da classificação. Sinal dos tempos já não tão risonhos na vida de uma seleção antes glorificada por tantas conquistas.
No campeonato nacional, o futebol tem estado de razoável pra bom, com momentos de excelência. Tenho visto partidas muito bem disputadas. Há meia dúzia de times, suando muito e jogando bonito. Há um punhado de goleiros, zagueiros, médios, atacantes, batendo uma bola respeitável. Qualquer técnico de esquina montaria duas equipes, no mínimo, pra encarar qualquer seleção que o Felipão quisesse fazer com os que já passaram pelas mãos dele, em poucos meses. Vamos pegar, por exemplo, os dois Atléticos, o São Caetano, o Fluminense e o Grêmio: dois de um, dois de outro, três daqui, mais um dali, três de lá. Aposto uns trocados e dou o empate.
Uma coisa posso garantir: qualquer equipe que se fizer com a turma do campeonato vai ter mais cara de Brasil do que a seleção que vem representando o Brasil nas eliminatórias. Que, por sinal, nem européia é. A seleção da Argentina já não tem mais o brilho de antigamente, aquele toco-y-me-voy que fazia furor pelos campos sulamericanos, ali pelos anos 40/50. Os estrangeiros de lá, contudo, guardam, ainda, um certo sotaque platino. Os nossos, sei lá porque, não são nem uma coisa, nem outra. Nem barro, nem tijolo.
Estou desconfiado de que a seleção nacional vive o drama da perda de identidade. Felipão já confessou que adota o sistema de jogo a que a maioria dos estrangeiros está habituada. Não é nada, não é nada, mais da metade da seleção joga em times europeus. Será que não valeria a pena repensar a seleção? Leão chegou a montar um time só com a brasileirada. Não deu certo; nem poderia ter dado. O homem andou recorrendo a jogadores limitados.
Tenho pra mim que, passada a eliminatória, o técnico, Felipão ou quem for, deveria rever os critérios da seleção. O Brasil precisa voltar ter uma equipe realmente brasileira. Da cabeça aos pés.

ECOS DO BRASILEIRÃO

Houve um tempo em que, descontente com o futebol brasileiro, eu ia buscar nos campeonatos europeus o prazer que já não tinha por aqui. Agora, a coisa está mudando: o que de bom não tenho visto por lá, agora, ando vendo por aqui. Na última rodada, por exemplo, vi pelo menos quatro partidas excelentes.
1) No sábado, São Paulo e Corinthians deram as cartas: o São Paulo, com um gol magistral de Kaká. Pela precisão, pela delicadeza do chute, sem um pingo de suor, Kaká colocou a bola como se fosse a mão direita. Um gesto parecido com lançamento de boliche. Uma beleza! Já o Corinthians, infatigável, demonstrou progresso, jogando um futebol de força coletiva. O novo time de Luxemburgo não tem realces individuais mas já alcançou um dinamismo e uma afinação dignos de equipe madura.
2) Jogo de tirar fôlego foi Portuguesa e Vasco da Gama. O escore teve cifras de pelada: 5 a 4. O jogo transcorreu, de ponta a ponta, em odor de pelada. Digo-o sem qualquer intenção de desmerecer as equipes. Pelo contrário, o futebol brasileiro só consegue ser ele mesmo quando revive suas origens. Em certa época, a imprensa esportiva, metida a sebo, condenava jogo de muitos gols. Era um vezo europeu. Pra ser bom, o jogo tinha que ser escasso de gols. Era a nefasta influência de certa corrente européia que pretendia tratar o futebol como ciência exata. Puro esnobismo. Portuguesa e Vasco saiu enriquecido pelos melhores ingredientes de uma pelada. Santa pelada.
3) Não menos empolgante e não menos bem jogado foi Santos, 4 x Grêmio, 2. Marcelinho e Viola fizeram uma tabelinha soberba, coisa de deixar europeu babando de inveja. Coisa de fazer corar treinador que amarra brucutu com linguiça. Não exalto os gols de Marcelinho porque achei que o goleiro, Danrley, sempre tão firme, aceitou-os, como direi, de bom grado. A partida, porém, foi jogada com extremo ardor e com excelente padrão, tanto técnico quanto disciplinar. O lance sublime a que me refiro, com tiradas de linha de passe tornaria o gol, se tivesse ocorrido, mero detalhe.
4) Inter e Atlético-MG não nos deram uma partida de grande valor técnico. Pela primeira vez, vi o time mineiro aquém dele mesmo. O próprio time do Atlético, admitiu que o time vacilou o tempo todo. O Inter, por sua vez, não brilhou, nem brilha tanto quanto gostaríamos. É a própria imagem sempre austera de seu treinador. Time de Parreira joga de cara fechada, mas ''resulta'', como diria um cronista argentino. Tanto que figura entre os oito primeiros na árdua travessia do campeonato.
5) Gostei, mais uma vez, de ver o Atlético-PR levar adiante sua trajetória mais que empolgante. Aí temos uma equipe sem surtos de alta técnica. O time paranaense, porém, é um perfeito exemplo de eficiência, de objetividade. Bobeou, Kleber e Kleberson estão lá, promovendo o inferno astral do goleiro adversário. Claro, não deixarei de louvar o trabalho de Geninho, invicto há 18 rodadas. Já, já, entra no Guiness Book.
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Colaborou Andréa Escobar
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