Na Grande Área - Armando Nogueira
Gilberto Silva é uma boa. A seleção de Scolari tem sido mal servida de volantes. E é ali, na fixa central do campo, que se define o padrão técnico-tático no futebol. É ali que começa a pulsar o talento ofensivo, verdadeiramente consciente de um time. Gilberto Silva chega à seleção já amplamente conceituado. Sabe desarmar sem truculência, é capaz de sair jogando, cabeça erguida, como convém a um cabeça-de-área.
Não quer isso dizer que Scolari resolveu dar a mão à palmatória. Birrento, insiste em Cris, em Roque Junior, em Emerson, que de craque nem pose têm. Podem dizer que sou impiedoso com alguns jogadores. Admito, com um esclarecimento: jamais questionei essa turma em seus times. Todos merecem ganhar a vida, mas não na seleção. Aqui, é lugar de notáveis. Sempre foi. Pelo menos, no Brasil.
Há um cheiro de protecionismo em algumas preferências de Scolari. A convocação do goleiro Dida me chateia pela incoerência. Ele já foi, com inteira justiça, o melhor goleiro do Brasil. Não é mais. Deixou de ser por uma simples razão: não joga há quase dois anos. Ficou congelado no Milan e ainda não é titular absoluto no Corinthians. O lugar, ao lado de Marcos, deve ser de Rogério Ceni, longe o mais eficiente da temporada, e Veloso, outro prodígio que fecha o gol do Atlético Mineiro.
Claro que Scolari tem carta branca da CBF pra fazer e desfazer o que lhe der na telha. Ele pode até recorrer a meios bizarros como a numeralogia e a ciência astro-cromática pra selecionar jogador. Mas não há de ser com o meu modesto aplauso.
Minha seleção pode ser uma utopia, mas nela quem manda sou eu. Cris, Roque Junior, Emerson, Tinga, Eduardo Costa, Elber - esses, nem pensar.
PELÉ E CRUYFF
Jorge Valdano é um cavalheiro. Dirige, hoje, o futebol do Real Madri, no cargo de diretor-técnico. Além de craque, campeão mundial em 86, no México, com a seleção argentina de Maradona. Valdano é autor de livros sobre futebol, um dos quais se chama ''Os cadernos de Valdano'' que li, deliciado. O moço é um poeta. Acabo de ler uma longa entrevista que ele concedeu à revista espanhola ''Don Balon''. O repórter pergunta a Valdano:
- O que significa pra você o nome Pelé?
- Pelé era a própria harmonia. Excepcional em tudo: chute, cabeceio, drible. Pelé era o que pode chamar o exagero do futebol.
- E Cruyff?
- Era da mesma família de Pelé, com outros métodos. Era o rei do engano, tinha o dom de iludir. Nunca fazia o que dava a entender que faria.
Na opinião de Valdano, a Copa de 2002 está entre a França e a Argentina.
O livro ''Cadernos de Valdano'' é rico de reflexões, de ensinamentos e também de pequenos casos que ele testemunhou quando jogava. Ele conta o diálogo entre um treinador e um cartola, na Argentina:
- Eu preciso que o senhor me contrate um zagueiro forte, que saiba marcar e que, além de bom jogador, seja um homem sério, honesto e disciplinado...
- Afinal, - responde o cartola - o que é que o senhor está querendo: um jogador ou um noivo pra sua filha?
RÁPIDAS E RASTEIRAS
A seleção feminina de vôlei começa a se firmar. Em torno da inefável Virna, desabrocha o futuro próximo da equipe brasileira. Lá estão, promissoras da camisa amarela Erica, Elisângela, Raquel, a infanto-juvenil Jaqueline, pra citar algumas estrelas das nova constelação. Marco Aurélio, o técnico da renovação, vai emplacar uma grande equipe. Quem viver verá. - Coisa triste: a diretoria do Palmeiras admite, publicamente, que o técnico Celso Roth foi crucificado pela torcida. Eles, os cartolas, nada tinham contra o treinador. Então, ficamos assim entendidos: pela nova moda, a diretoria contrata o técnico e a torcida despede. O exemplo já foi assimilado pela torcida do Santos: a diretoria não dispensou Cabralzinho, não escurraçou Viola, nem Robert, no dia seguinte, a malta invadiu a Vila e, por um triz, não apronta uma tragédia no clube. Vergonha! - Onde já se viu diretoria de clube se deixar transformar em refém de baderneiros. - Vi, quarta-feira, um jogo de vôlei masculino simplesmente arrebatador. Personagens: o Palmeiras e o Banespa. Dois sets a zero, um massacre do Banespa. Vem o terceiro set. Serão favas contadas, pensei eu, pensaram os comentaristas do Sportv, tal a superioridade do Banespa de Geovane. Risonho engano. O time do Palmeiras desperta, agiganta-se, vence o terceiro, vence o quarto e, exuberante, vence o quinto set. Pensei, no ato: quanto pode a força de uma camisa. Esporte é mística. - E se esporte é, realmente, a magia de um escudo porque será que os vascaínos deixam Eurico Miranda fazer o que está fazendo com a legenda do Vasco? - Esse Luizão, do Corinthians, é um ser especial. Joga um belo futebol, é solidário, coisa pouco comum num artilheiro (o artilheiro, antes de tudo, é um narcisista do gol. No jogo com o Universidad Católica, do Chile, ele sabia que era a grande promessa de gol do Corinthians. Estava feliz, acabara de ser convocado pra seleção. De repente, é traído por um músculo da coxa. Desolado, deixa o campo em prantos. Eram lágrimas de um coração magoado. Confesso que me emocionei.
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Colaborou Andréa Escobar
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