Na Grande Área - Armando Nogueira
PORTA DE TINTURARIA
Então, quer dizer que o Felipão andou me dando uma de visionário? Trocou critérios técnicos por uma estranha ciência que nem nome tem. Antes do jogo com o Paraguai, o técnico da seleção consultou dois especialistas. São pessoas que traçam o perfil de um atleta, alinhavando trunfos psicológicos, astrológicos, aliados a insólitas implicações cromáticas.
Foi a partir de tão exdrúxulas indagações filosóficas que Cris, por exemplo, efetivou-se na seleção. Ficara provado, à luz do Disco de Newton, que o fogoso zagueiro tem na alma tintas do amarelo, pelos doutores definido como a cor dos homens criativos. O Tinga, por sua vez, foi convocado por pertencer, na escala astro-cromática, à cor verde que encerra astúcia e persistência. Já o Emerson e o Roque Junior pertencem à casta do vermelho, sinal de força, liderança, poder da mente e equilíbrio. Quem diria! A seleção virou porta de tinturaria.
Os dois consultores acabaram dispensados porque teriam aconselhado a barração de Cris e do goleiro Marcos no jogo contra a Argentina, em Buenos Aires. Na hierarquia dos signos, os dois, embora criativos, seriam sujeitos a altos e baixos e, assim, poderiam enterrar a seleção. E não é que o Cris, escalado à revelia dos ''cientistas'', acabaria fazendo um gol contra? Não deixa de ser curiosa a revelação de que o amarelo de Cris sugere sabedoria, astúcia, bondade, amor. De duas, uma: ou estão nos gozando ou, então, estamos diante de uma grande miragem...
Eu que sempre vi o Felipão como um tremendo pragmático, rendo-me à realidade de que o técnico da seleção - pasmem! - tem lá suas tintas de sonhador.
Enfim, como diz o poeta Murilo Mendes: ''Felizes os visionários: deles é o reino infinito da visão.''
UM HOMEM SITIADO
Celso Roth foi demitido do Palmeiras. Em 50 anos de estrada, não me lembro de ter visto um treinador ser tão hostilizado quanto o gaúcho Celso Roth. A torcida do Palmeiras não o perdoava, nem na derrota, nem na vitória. Que mal terá feito esse moço pra merecer a tamanha aversão? É fora de dúvida que, Celso Roth conduzia o time do Palmeiras com notável regularidade. Manteve-o líder do campeonato, o tempo todo, só tendo caído três ou quatro posições, nas duas últimas rodadas.
O cidadão Celso Roth sempre me pareceu uma pessoa de atitudes elegantes. Fala com desenvoltura, não destrata ninguém, nunca se exibe teatralmente à beira do campo. Jamais passou recibo às agressões verbais de que vinha sendo alvo. Jamais cobrou de qualquer jornalista o tratamento de bola da vez que sempre recebia da imprensa, sistematicamente, e que, agora, acaba de se consumar por decisão injusta do clube.
Fica louco quem se mete a entender a alma humana. Enquanto Roth, com sua discrição, era tão fustigado, fosse na arquibancada, fosse na mídia, alguns treinadores, príncipes da velhacaria, vivem sendo cortejados por tudo e por todos, a toda hora.
Pra consolo de Celso Roth, dedico-lhe uma versão bem popular do Salmo 32: ''Feliz do homem em cujo espírito não medra a impostura.''
ANTIÉTICA FUTEBOL CLUBE
As federações de futebol vão se reunir, proximamente, pra tratar da sucessão na CBF. Se depender só deles, reelegerão, por aclamação, o impoluto Ricardo Teixeira. Mas talvez tenham que se render a pressões de todo lado contra a permanência de seu amo e senhor. O governo e a opinião pública estão de olho nas patifarias do futebol. Os velhacos já devem estar pensando em alternativas. Candidato é que não faltará. Só o Senado Federal acaba de oferecer alguns nomes sob medida pra comandar a CBF, dentro dos cânones da tradicional improbidade no futebol brasileiro. São eles os senadores Juvêncio Fonseca, Carlos Patrocínio, Geraldo Melo e Ney Suassuna. Em deslavada tabelinha, os quatro deram um bico na moral pública, mandando pro espaço o Conselho de Ética do Senado. Cada um debulhou arrepiantes argumentos pra justificar a dissolução do Conselho. O voto do senador Carlos Patrocínio, que é suma do pensamento de seus três colegas, deve estar sendo celebrado, com champanhe e charuto, por gente como Eurico Miranda e Ricardo Teixeira: ''Se formos condenar quem enriqueceu ilicitamente ou cometeu irregularidades, seremos obrigados a processar centenas.''
Uma pérola de desfaçatez, meu nobre Senador.
UM SANTO MILAGRE
Pergunto a Junior: se você voltasse aos 20 anos, em que time gostaria de estar jogando este campeonato? Resposta do ex-craque, com seu cativante sorriso: ''Certamente, no São Caetano''. Razões da preferência de Junior: o São Caetano é o mais espontâneo, o mais alegre, o mais gostoso entre todos os times brasileiros.
Pois, meus amigos, essa equipe ainda não mereceu o devido reconhecimento dos poderosos do futebol. Criam uma liga pra tocar o torneio Rio-São Paulo e o São Caetano não foi sequer convidado pra festa. Vai ter que ficar no sereno. Uma equipe que vem liderando o campeonato brasileiro por seus méritos; uma equipe que está lutando contra tudo e contra todos; uma equipe que, mesmo sem reinado e sem coroa, reina, soberana, sobre 27 equipes de um campeonato duríssimo, coisa de gente grande.





