Na Grande Área - Armando Nogueira
O técnico Marco Aurélio, do Cruzeiro, foi apanhado em flagrante, pelos microfones, mandando seu time fazer faltas. Foi no jogo com o Fluminense, domingo passado. Aí está uma voz de comando que devia envergonhar um comandante. Mandar marcar, pra facilitar a retomada da bola, é um dos deveres de um treinador de pulso. Mandar atacar o adversário, faltosamente, é confissão pública de que não confia no cacife técnico de sua equipe. Pior, ainda: é dar prova, em público, de que seu time, no caso, o do Cruzeiro, não sabe desarmar. Por sinal, um fundamento do jogo que o técnico brasileiro despreza e que o jogador não exercita jamais. Foi assim que caímos no flagelo do estilo brucutu. Foi por isso que nos tornamos campeões mundiais em número de faltas por jogo.
Há tempos, vi Zagallo, no Maracanã, à beira do campo, descabelar-se porque o time do Flamengo defendia-se muito mal. O gol do rival parecia iminente. Zagallo berrava, mandando que os atacantes voltassem pra dar uma mãozinha na marcação. Em nenhum momento, ouviu-se dele uma única palavra pra que o seu time apelasse. Zagallo queria a vitória, que estava por um fio, mas que fosse dentro do melhor padrão ético.
O folclore do futebol fala de um treinador de praia, o legendário Cartolino, que tinha um time nas areias de Copacabana. Um dia, vendo sua equipe ameaçada de tomar uma goleada, Cartolino começou a gritar, do alto do calçadão:
-''Arrecua os arfes pra invitar a catastre!''
De Cartolino a Zagallo, ai estão duas lições que o técnico Marco Aurélio precisa aprender, se não quiser correr o risco de passar à história do futebol brasileiro como um técnico brucutu.
DE PARABÉNS O FUTEBOL
Pelé fez aniversário: 23 de outubro de 1940. Vi-o, um menino, estrear na Copa do Mundo de 58, na Suécia. Tinha um olhar eu diria metafórico, de quem nasceu pra antever. Sempre me impressionou a força do olhar com que Pelé desvendava os mistérios de uma bola. Quando o zagueiro percebia, já era tarde: Pelé já tinha visto tudo, já tinha chutado a bola com a qual marcara encontro, antes de todos. Graças a ele o Brasil acabaria celebrado no mundo inteiro como o país do futebol. A ele e a sua alma irmã, o inefável Garrincha, parceiros ambos na saga da libertação do futebol brasileiro.
Desde aquele distante mundial, nunca mais Pelé deixou de maravilhar os estádios com seu futebol de prodígios feito. Acompanhei-o, de perto, pelas Copas que conquistou. Passou a vida desterrando defesas, com dribles magistrais, com fintas estonteantes, inventor de jogadas que, antes dele, o mundo jamais tinha visto.
Quando Pelé faz aniversário, a bola também faz anos. Os dois procedem da mesma fonte divina. Ela, o brinquedo fascinante, ele, o menino que brinca, símbolos os dois da própria alegria de viver.
ATLÉTICO DESLUMBRANTE
Dos times que pude acompanhar, domingo, alegro-me de ter visto o Atlético Mineiro. Foi hora e meia de encantamento. O time do Flamengo só existiu, a partir do momento em que desabou um temporal de revirar guarda-chuva. O toró que alagaria o gramado nivelou as forças, ficando, até mesmo pelo placar, a impressão de que houve equilíbrio. Coisa nenhuma. Faço minhas as palavras do lateral rubro-negro Alessandro que declarava, depois do jogo: ''O Flamengo não jogou nem dez por cento do que jogou o Atlético Mineiro''.
Em campo seco e bem gramado, o time do Atlético está jogando uma bola eletrizante. A cadência é vertiginosa e solidária. Todo mundo se sucede, na hora de retomar a bola e todo mundo se desloca, querendo dar opção de jogadas ofensivas, ponto forte da equipe. Há momentos em que a troca de passes, em alta velocidade, me dá a sensação estar vendo no palco um corpo de baile. Um alumbramento, amigos.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Maradona tem uma novidade pro jogo de despedida que fará dia 10 de novembro, na Bombonera (estádio do Boca) em Buenos Aires: a tatuagem do rosto de Fidel Castro que ostenta na batata da perna canhota. Ao lado, também tatuado, o autógrafo de seu eminente amigo. Que, por sinal, é o principal convidado da festa do dia 10.
- Gol bonito quem fez, domingo, foi o atacante Cláudio, do Grêmio, contra o Corinthians. Pegou de sem-pulo, pé direito. Saco.
- A bola parada está decidindo jogo. Sábado e domingo, foram 14 gols de bola parada, entre pênaltis, escanteios e faltas. Desse total, a metade foi feita de cabeça. Neném Prancha está mais vivo que nunca: no futebol, pregava o filósofo, a cabeça é o terceiro pé.
- Romário, que se orgulha de não ter papas na língua, podia perfeitamente colaborar com a CPI do futebol, levando ao Senado informações sobre a máfia que explora o futebol juvenil do Vasco Gama.
- Estava na cara que o vôlei ia acabar criando uma alternativa pro gigantismo dos jogadores, cuja média, hoje, já vai passando dos dois metros de estatura. Até o feminino, principalmente, na Rússia, já beira o segundo andar. O jeito é criar categorias. Mantém-se a dos varapaus e lança-se outras categorias, diríamos, mais humanas.





