Na Grande Área - Armando Nogueira
O campeonato brasileiro-2001 está cada vez melhor. Tem seus furos, tem. A arbitragem podia ser mais rigorosa, podia, sim. A cartolagem é de muro baixo, é sim senhor. Tirando os pequenos estragos, porém, tem dado gosto ver tanta coisa bonita, a cada rodada. A última, por exemplo, foi de lavar a alma. Vi jogos que deixam no chinelo qualquer campeonato, mundo a fora. Inclusive o italiano que a propaganda quer nos fazer crer ser o melhor do planeta. Pode até ser, mas só se for no bolo de dinheiro que circula pelos estádios do ''cálcio''.
Jogo esplêndido
Santos-Atlético Mineiro foi esplêndido, seja pela combatividade, seja pela abundância de jogadas bonitas, coisa só de craques como Marcelinho, Robert, Marques, Ramon, Veloso e todos os coadjuvantes, alguns promissores como o volante Gilberto Silva, do Atlético.
De tirar o chapéu
Quem viu Flamengo-Corinthians, no Morumbi, sentiu-se recompensado pela intensidade dramática da disputa. Foi ali, parelho o tempo todo. Ricardinho, enquanto teve fôlego, deu corpo e alma a uma equipe ainda em gestação, mas que amadurece, a olhos vistos.
Achei engraçado que, depois do jogo, o vestiário rubro-negro exultava com o toque de mestre de Zagallo que teria salvo o Flamengo com trocas providenciais, uma delas, a do jovem Roma. Bom, Zagallo tem olho clínico capaz de fazer milagres, mas, dessa vez, quem virou o jogo foi o gringo Petkovic, destroçando, individualmente, a defesa corintiana, com dribles e fintas magistrais. Até que, numa centelha de craque, o moço me faz um gol, mas um desses gols que merecem todas as reverências. De se tirar o chapéu. Tendo total domínio da bola, Pet avança em diagonal, área a dentro, ilude os marcadores com uma falsa passada (bem comparando, foi como se o pé direito hesitasse no gesto a adotar) e desfere um chute poente e preciso. Pé de seda. Pé de chumbo.
O franco (atirador) . . .
Pra mim, foi o gol da rodada. Poderia ter sido, também, o primeiro do São Caetano, fruto de uma brilhante maquinação de Anailson, que enfiou a bola, sucessivamente, por entre as pernas de dois defensores do Inter, fazendo um passe-manteiga pra Esquerdinha marcar.
Eis aí outro jogo de boa qualidade, em que merece realce o ânimo construtivo das duas equipes. Ninguém estava ali pra blefar. A bola corria, senão risonha, pelo menos, franca. Claro reflexo dos dois comandantes. Jair Picerni tem como regra de ouro de seu trabalho a coragem de atacar, sem perder o senso de equilíbrio da equipe. Ele proclamava, findo o jogo, que se orgulha de ver a alegria com que joga seu time. O segredo maior: a liberdade de criar que concede a seus jogadores. Quem souber driblar, que drible, quem souber fintar, que finte. Claro como água de poço.
Dois canhotos, duas jóias
Teria eu ainda a celebrar belos momentos de outras partidas como Grêmio-Cruzeiro, Bahia-Ponte Preta, AtléticoPR-América Mineiro. Em todos esses jogos, vi gols magistrais, como as duas faltas cobradas pelos canhotos Souza e Fabrício, em Curitiba.
Seleção, um abismo
Vejo uma tarde assim, de jogos, de jogadas, de gestos culminantes e me pergunto: por que cargas d'água a seleção nacional vive no buraco, se temos um campeonato tão rico de talento, de fulgor, de criações prodigiosas?
Não estará na hora de abrasileirar, de verdade, a seleção bate-estaca, pastiche do futebol europeu?
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- José Roberto Wright, comentarista de arbitragem da Globo, pegou pesado pra cima de Márcio Resende de Freitas: ''O Márcio está decadente!
- Por sua vez, o Galvão Bueno pegou no pé da cartolagem, pedindo explicações sobre a exclusão do São Caetano da Liga Rio-São Paulo. Já reclamei, também, aqui, na coluna e ninguém dá ouvidos. Não seria o caso de mandar fazer uma pesquisa de opinião, ouvindo torcedores? De vez em quando, um gesto democrático talvez fizesse bem à cartolagem.
- Oswaldo de Oliveira deu-se bem numa enquête feita, domingo, pelo Sportv. A questão era a seguinte: Quem é o melhor treinador do campeonato brasileiro, até aqui? E vinham os nomes dos cinco mais bem colocados no ranking dos times: o dito Oswaldo de Oliveira teve 31 por cento, Jair Picerni vem em segundo, Levir, em terceiro, Geninho, em quarto, e Celso Roth, em último.
- O técnico Candinho, de notório bom senso, apareceu, no fim-de-semana, com uma teoria exótica: acabar com o cartão amarelo que, na opinião dele, só afeta as equipes, provocando sistemáticos desfalques. Ora, ora, parece a anedota do marido enganado. Descobriu que a mulher e o vizinho o traiam atrás do sofá e não pensou duas vezes: mandou tirar o sofá da sala. O mal não está no sofá, digo, no cartão, e sim, no instinto de transgredir comum a certos jogadores. É só o técnico orientar, doutrinar, fazer a cabeça dos indisciplinados.
# # # # #
Colaborou Andréa Escobar
# # # # #
Correspondências para ''Na Grande Área'': Cx.Postal: 34062 - CEP: 22.462-970 - Rio de Janeiro - RJ - E_MAIL: [email protected] - HP: www.armandonogueira.com.br





