Eram duas senhoras, ambas brasileiras, ambas já entradas na terceira idade. Vinham das compras. Anoitecia em Nova York. Dez metros atrás, perceberam um homem negro, alto, corpulento, que trazia pela coleira um baita cachorro. Dobraram a esquina, pra pegar a rua do hotel. O homem dobrou também. Apressaram o passo, querendo tomar distância. A estranha figura, de óculos escuros, ia se tornando mais e mais incômoda. Era uma sombra, pra elas, aterradora.
Felizmente, o hotel. As duas senhoras entram, aliviadas. Mas por pouco tempo, pois quando o elevador chega, chega pra ele também. Os três, ali, confinados, naquele caixote, as duas morrendo de medo. De repente, o negão, sem olhar pro cachorro, murmura uma palavra de ordem:
-Seat! Seat!
O cão, um alentado Labrador, obedece e senta. Uma delas, mais sôfrega, acha que o homem está falando com ela e vai logo se agachando. O negão mal disfarça um sorriso incontido. Pra alívio geral, a porta do elevador se abre. O indesejado salta, acarinhando o cachorro.
Na tarde do dia seguinte, as duas hóspedes, já de viagem marcada, mandam descer as malas. Pedem a conta.
- O hotel das senhoras está pago!
- Como? Passamos cinco dias aqui, não nos cobraram nada.
- Madame, quem pagou a conta foi aquele moço que subiu no elevador com as senhoras. Ele contou, morrendo de rir, que quando ele mandou o cachorro sentar, uma das senhoras, tremendo de medo, sentou também. Ele disse que ficou com pena e resolveu se desculpar, pagando o hotel das senhoras.
O distinto não era outro senão Michael Jordan. O próprio.
ODIAR NÃO É FÁCIL
Um jovem me escreve, cheio de dedos, pra me perguntar porque razão eu não gosto do Atlético Mineiro. No e-mail, vem até uma confidência: há anos que ele ouve o pai lhe garantir que eu, Armando, tenho ódio ao clube de seu coração. Pobre marquês de Xapuri! Em nome de que praga haveria eu de odiar, justamente, o time cuja camisa só me faz lembrar o Botafogo, sabidamente, o clube de minha velha afeição?
Gostaria de dizer, ainda, que, pra felicidade geral da humanidade, o ódio não é um sentimento de uso corrente. É preciso ter parte com o demônio pra saber praticá-lo. É muito difícil odiar. Se assim não fosse, eu poderia, agora, dizer que o pai de meu jovem leitor me odeia. Jamais faria semelhante mau juízo de alguém.
Moço, diga a seu querido pai que ele está sendo injusto. A paixão do esporte, pelo menos em mim, me remete à infância, doce universo em que não há lugar pra sentimentos subalternos. Guardo, desde então, a virtude maior do esporte, que é o entusiasmo.
Quem se nutre de entusiasmo não é capaz de odiar. O ódio é o castigo dos energúmenos.
DÁ GOSTO VER...
Times que tenho gostado de ver jogar no Brasileiro: os dois Atléticos, o paranaense e o mineiro, o São Caetano, o Grêmio e, nem sempre, o Palmeiras. Os dois Atléticos têm estilos diferentes: o do Paraná é o rei do contra-ataque. Numa fração de segundos, irrompe na área rival, célere e mortal. Já o outro, o mineiro, é mais refinado. Chega onde pretende, mas chega, tocando a bola, usando o talento de sua meia-cancha, toda ela de muito boa formação técnica.
No mesmo nível de qualidade, admiro o padrão coletivo do São Caetano. Tal como no Grêmio, o que se insinua, claramente, é o dedo do treinador. Jair Picerni e Tite trabalham em silêncio. Não fazem encenações à beira do campo. Ambos retocam as linhas de suas equipes, ora, no campo de treino, ora, no vestiário.
A restrição que faço ao time do Palmeiras vai por conta da rispidez com que jogam volantes como Magrão e, principalmente, o veterano Galeano. Confesso que tenho tal aversão a botinadas que acabo perdendo um pouco a serenidade quando tenho que analisar uma equipe. Galeano à parte, me agrada muito ver em ação jogadores da categoria de Pedrinho, de Lopes e do lateral Arce. A bola sente-se honrada de tê-los como parceiros.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- O presidente do Flamengo, Edmundo Santos Silva, anda falando grosso pra cima de Zagallo e do time. A fala do cartola só afina é quando tem que prestar contas à CPI do Senado.
- Por falar disso, os amigos já notaram que a CPI faz mal à saúde? Ricardo Teixeira adoeceu das coronárias, Santos Silva, por sua vez, está sofrendo de cáries dentárias. Eurico Miranda, com o escudo da imunidade parlamentar, parece salvo dos pequenos flagelos que acometem os outros dois indigitados cartolas.
- Recebo um telefonema, como sempre cordial, do coronel W.Almeida. Trata-se de uma das pessoas que mais ajudaram a aviação esportiva brasileira, quando dirigiu o SERAC-III. Gente finíssima.
- Se, por acaso, você é fumante e pretende ir à Copa do Mundo, fique sabendo que o cigarro não terá vez em nenhum estádio, seja na Coréia, seja no Japão. Os não-fumantes, como eu, estão de parabéns.
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Colaborou Andréa Escobar
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