Na Grande Área - Armando Nogueira
VEM CHUMBO GROSSO...
O campeonato 2001 vai entrar, agora, na chamada cruz dos caminhos. Acabou a sopa, se é que sopa havia até aqui. Chegou a hora dos clássicos de verdade. Equipes de massa como Corinthians, Flamengo, mais que as outras, vão ter que ajustar contas com suas torcidas. Cada jogo será uma prova de fogo, uma provação. É da arquibancada que virá o chumbo grosso. Já pensou o time do Corinthians, cheio de garotos, atazanado por uma multidão intolerante? Haja divã durante a semana.
Noutros tempos, a torcida era exaltada como o 12º jogador da equipe. Hoje, com as organizadas, a torcida se subdivide em facções, com perfis e interesses distintos. Cada turma tem seu código de conduta, cada uma tem seu preço, cada uma tem suas idiossincrasias. Uma coisa, porém, aproxima essas tribos: a sucessão de derrotas, sobretudo quando a fase negra coincide com o bom momento de um grande rival.
A essa altura do campeonato, eu não gostaria nada de estar na pele do Flamengo e do Corinthians.
Quem sabe clubes como Flamengo e Corinthians, daqui pra frente, poderiam recorrer ao expediente usado pelo Botafogo carioca? Certa de que tem um time de meia tigela, a diretoria do Botafogo faz o que fez sábado passado: agraciou a torcida, com três mil ingressos dados de mão beijada. Havia, no Maracanã, seis mil pessoas. Pois exatamente a metade assistiu ao jogo sem pagar um tostão. É claro que a intensidade da bronca caiu pela metade e como metade de pouco é quase nada, não houve vaia, ninguém chiou. Afinal, gentileza com gentileza se paga. Ninguém resiste a uma boca livre. Sabemos que o time do Botafogo é uma perdição, mas, como diz o povão, de graça, até injeção...
O Botafogo é o clube da minha velha afeição, mas devo admitir que o saudoso professor Santhiago Dantas estava coberto de razão quando, certa vez, disse a Augusto Frederico, poeta e botafoguense: ''Schmidt, o Botafogo tem a vocação do erro!''.
DA CABEÇA AOS PÉS
Um dado curioso da 14ª rodada do campeonato brasileiro de futebol: em 13 partidas, não houve um só gol de cabeça. A verdade, porém, manda dizer que a cabeça teve papel relevante em alguns dos mais bonitos gols de domingo. Evair foi absolutamente cerebral na trama do gol que fez no Corinthians, com bola em movimento. Outro gol bem pensado foi o do chute de Luis Fernando, do Gama, disparado de trinta metros de distância.
Nem sempre, porém, cabeça e pé se entendem, no breve instante de um gol. Veja o caso do segundo gol vascaíno no jogo com a Ponte Preta. Fabiano Eller vem correndo pela ponta esquerda, levanta a cabeça, olha pra área, procurando um companheiro. Ato seguinte, sai um chute com o clássico ângulo de centro. A bola não toca em ninguém e vai entrar no canto superior da baliza. É o famoso gol sem-pé-nem-cabeça que o torcedor conhece, há séculos. A cabeça pensa uma coisa e o pé faz outra muito diferente...
A cabeça abre alas pra medula. Melhor que o gol pensado é o gol sentido. Vocês viram o Macedo, da Ponte Preta? Num pedacinho de chão, ele me dribla um cara, aparece outro, ele descarta, com astúcia de autêntica capoeira, limpa a jogada e me faz um gol, um gol que seria, apenas, o fecho de uma jóia esculpida num sopro de vento. Obra de repentista. Igual em invenção, só mesmo, o gancho do atacante Leo, do Guarani, driblando o rival corinthiano com um chapéu (de aba larga). Em velocidade, Leo dá um toque de calcanhar, alça a bola que encobre o marcador e já cai adiante, pronta pro passe que Sinval converte, com simplicidade. Leo, o autor dessa artimanha, é um garoto de apenas 17 anos.
O domingo foi contemplado ainda, com belos gols feitos por canhotos. Os dois melhores foram o de Pedrinho, do Palmeiras, contra o Coritiba, e o de Luis Fernando, do Gama, no Flamengo, esse um verdadeiro míssil desfechado lá do meio da rua. Houve, ainda, outros gols de pé esquerdo, como o de Evair.
Como pertenço à confraria, não posso perder esta chance de louvar a contribuição dos canhotos à safra da rodada. Dos 34 gols do fim-de-semana, nada menos de 15 foram em chutes de canhota. O esporte, principalmente o futebol, deve mais aos canhotos do que supõe a Bíblia, com sua implacável pregação em favor dos destros e preconceituosa contra os canhotos.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- Vacilei e troquei as bolas: o tênis olímpico, na Grécia, que será jogado em quadra de cimento, é uma vitória dos americanos e não dos espanhóis, como escrevi domingo passado. A primeira idéia do COI era fazer o torneio de tênis no saibro e, aí, sim, estaria mais pra escola de Espanha. A observação é de leitores ligados ao tênis e bem mais atentos que este pobre marquês de Xapuri.
- Um convite aos meus leitores: conheçam a HP ''Revista do Armando Nogueira'', endereço: www.armandonogueira.com.br. Gratíssimo pela visita.
- Mais uma rodada do campeonato brasileiro, mais um desfile de grandes goleiros. Pra variar, Rogério Ceni deu recital de técnica, de acuidade, de domínio absoluto da pequena área. Raul Plassman, grande goleiro do passado, vota comigo. Pra nós dois, Rogério Ceni é, sem dúvida, o mais perfeito goleiro do futebol sulamericano.
- O time do Atlético Mineiro não é de fazer espuma. Joga, dobra o adversário, vence e convence.
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Colaborou Andréa Escobar
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