A seleção argentina tira de circulação a camisa número 10. É um jeito presunçoso de homenagear Maradona. Nem chega a ser original. A NBA já fez coisa semelhante com a 23 de Michael Jordan. No Brasil, percebo uma ligeira ponta de mágoa porque a CBF não fez a mesma coisa com a camisa que Pelé tanto ilustrou pelo mundo a fora. Devo ser voto vencido. Acho a idéia, no mínimo, discutível. Conheço gente na Argentina que prefere Di Stéfano a Maradona. Vá perguntar aos espanhóis se já houve jogador melhor que o argentino don Alfredo Di Stéfano, grão-senhor do Real Madri, nos anos 60.
Se um dia a CBF resolvesse cometer a tolice de canonizar a camisa 10, em honra de Pelé, certamente, teria que fazer o mesmo com a número sete, por gratidão a Garrincha. Vou mais longe: se dependesse de Pelé, com certeza, ele gostaria de ver celebrizada a camisa oito de Zizinho, pra ele, Pelé, o mais perfeito jogador do mundo.
A idéia parece infeliz sob todos os aspectos. Uma assembléia de camisas, certamente, condenaria a decisão do cartola Grondona da AFA. A começar pelo próprio número 10 que, agora, não terá mais vez na seleção argentina. Pra consagrar Maradona, não precisa barrar a camisa que, diga-se, a bem da verdade, não pertence a ninguém, em particular. Uma camisa, de clube ou de seleção é uma entidade, um patrimônio que transcende o tempo e o espaço; que se sobrepõe à condição humana do jogador. É, ao mesmo tempo, esperança e saudade. Retirar de circulação uma camisa é dar as costas ao futuro e sepultar o passado.
Pra mim, a camisa 10, como as outras, deve continuar nos campos, viva feito um sonho, justamente pra nos dar mais saudades de Maradona. Fico com o velho e sábio provérbio: o que os olhos não vêem o coração não sente.
DESFOLHANDO A MARGARIDA
As listas do Felipão dariam, fácil, um samba-do-crioulo-doido daqueles que Stanislau Ponte Preta compunha com tanta graça. É um tal de entra-e-sai, digno, mesmo, do folclórico desfolhar da margarida, doce passatempo das crianças de outrora. Sabe como é, caro leitor, o técnico da seleção vive num ócio que de criativo não tem nada. Vai chegando dia de jogo, o homem pega uma florzinha e põe-se a depená-la. O Antônio Lopes faz o papel de juiz, garantia de lisura na escolha. Juninho Paulista é par, o outro, o Pernambucano, é ímpar. Dessa vez, deu par. Felipão avisa ao Lopes: suspense! que, agora, é a vez do Tinga. E como o Tinga era bem-me-quer e acabou dando mal-me-quer, o indigitado já era. Fica pra próxima. Sortudo, mesmo, é o Dida. Tem tudo pra ficar de fora: não joga há mais de ano, certamente, perdeu noção de tempo e espaço, não assina uma súmula há séculos, mas como se dá bem no joguinho da margarida, pretere uma legião de excelentes goleiros que aí estão, dando show em seus times. O desestímulo é o prêmio que recebem da seleção.
Esta breve crônica é dedicada ao jogador Zinho, o esquecido da seleção mal-me-quer.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- O goleiro Fábio Costa, do Santos, pegou um jogo de suspensão. Todo mundo esperava oito. A começar pelo próprio clube dele. E com razão: o rapaz tinha cuspido no rosto do atacante Sinval, do Guarani. No mesmo acesso, dera um tapa no volante Preto, colega de equipe. O árbitro foi íntegro, registrou tudo na súmula. O tribunal de justiça (assim mesmo, com letra minúscula, pra dar a dimensão menor do órgão) pune o indisciplinado com um mero joguinho. Insanidade ou safadeza dos cartolas?
- Carlos Nuzman, presidente do COI, me manda farta documentação em que prova que não há o mais leve fundamento na versão de que ele sabotou a candidatura da cidade de São Paulo a sede dos Jogos Panamericanos de 2007. Devidamente esclarecido, dou a mão à palmatória pela nota aqui publicada, semana passada.
- No jogo do Palmeiras com o River, quarta passada, revi, na garotada de Ramon Diaz, o melhor padrão técnico argentino. Como era bonito o ''toco y me voy'' do River e da seleção argentina dos anos 40 e 50.
- Ainda o jogo de quarta-feira: Luciano do Valle pegou firme no pé do técnico do River - com toda razão. O jogo estava 3 a 1, pertinho do final, que faz, então, o técnico do River? Tira Ariel Ortega, justamente o melhor da partida. Achou que a vitória já estava no papo, o Palmeiras jogava com dez e jogava mal. A atitude do técnico soou como claro menosprezo que acabaria ferindo o amor próprio do time do Palmeiras. Em cinco minutos, o jogo chegava a 3 a 3 e, por um fio, o Palmeiras não faz o quarto gol. Aliás, teria sido um bom castigo pra Ramon Diaz.
- Janeth quer montar um time de basquete de peso e está correndo atrás de patrocinador. Só mesmo no Brasil uma estrela como Janeth ainda precisa ''correr atrás'' pra formar uma equipe de basquete.
- O tênis dos Jogos Olímpicos da Grécia, em 2004, será em quadra de cimento e não no saibro, como se chegou a noticiar. Uma vitória da escola espanhola sobre a americana.
- Depois de ficar um tempo sem clube pra jogar, Helen assinou um contrato de quatro meses com o Unimed/Americana, dirigido por Paulo Bassul, assistente do Barbosa, técnico da seleção brasileira de basquete. A jogadora adorou a temporada que passou no Washington Mistics, onde diz que melhorou a defesa e a condição física. E promete voltar pra NBA na próxima temporada.

mockup