Na Grande Área - Armando Nogueira
GUGA E A FAMA
Guga fez aniversário esta semana. A data é bonita, 25 anos, e bem que merece uma celebração nacional. Em vez de festa, porém, Guga preferiu ir à luta. Já foi disputar novo torneio ATP, dessa vez, no Brasil. A vida de tenista é assim mesmo: descansa carregando pedra. É por essa e por outras que não dei razão a um leitor que me escreveu, queixando-se de Guga. Acha que o nosso herói é arredio, evita como pode o cerco da fama. Reclama o leitor que, agora, durante o Aberto dos Estados Unidos, Guga se escondia de tudo e de todos. Limitava-se a treinar, jogar, sumir.
Já respondi o e-mail do leitor. Disse a ele, mais ou menos, o seguinte: há criaturas que não lidam muito bem com a popularidade. Conheci de perto atletas que, no ápice da fama, sentiam-se mal quando eram cortejados publicamente. Guga pertence a essa família. E não adianta: quanto mais glórias o tênis lhe der, mais ele vai se esconder.
A trajetória de Guga tem sido marcada pela discrição. Ganha um título e some do mapa. A mídia vai à loucura. Cadê o rapaz? O rapaz, sabe-se vagamente, foi surfar nos mares do sul. Ele gosta do êxito mas não da badalação, nem da ostentação. Me lembro que, no primeiro Roland Garros que venceu, fizeram uma estátua dele, tamanho natural, pra ilustrar uma praça de Florianópolis. Quando soube da homenagem, Guga mandou um recado: ''Esquece! Pode derreter o busto.'' A recusa foi aprovada pela família Kuerten. Ninguém jamais verá Guga tomando banho de mar na ilha de Caras, nem circulando de Porsche com uma Maria-raquete.
Conheci alguns heróis que não reagiam bem à idolatria. Um deles era Tostão. Depois de conquistar, com o Cruzeiro, a Taça do Brasil, ninguém lhe dava sossego. Um dia, saiu de casa pra fazer uma compra, no centro de Belo Horizonte. Quando saltou do carro, havia uma pequena multidão a cortejá-lo. Abraços, tapinhas nas costas, autógrafos. Um cerco de tirar o fôlego e a naturalidade. Tostão foi desguiando de fininho, pegou o carro e desapareceu no turbilhão da galera, consumido por uma crise de angústia profunda. Ficou dois dias sem sair de casa.
Em compensação, aí está o Pelé, embandeirado, ali hoje. Ninguém lida melhor com a fama do que ele. Câmera, flash eletrônico, microfones, ele não vive sem o cortejo da fama. Dá autógrafos até em velório. Certa vez, num vôo pra Madri, presenciei a seguinte situação: Pelé, passageiro da primeira classe, passou parte do vôo noturno, sem dormir. Consentidos por ele, os viajantes da econômica, recolhiam autógrafos, numa fila silenciosa e interminável que varou a noite alta. Eram brasileiros, estrangeiros, estudantes, irmãs de caridade, padres de batina, caixeiros-viajantes.
Até hoje, esteja onde estiver, Pelé estará assinando autógrafos, com um sorriso fraternal, solícito, como se tivesse acabado de marcar o gol da vitória pela seleção.
UM GOL PRO FELIPÃO
Se Felipão estivesse por aqui, no fim-de-semana, teria que engolir, em seco, a declaração feita por ele, há dias, de que o futebol-arte está morto. Pena que o técnico da seleção brasileira não tenha visto tanta coisa bonita dos jogos da décima rodada. Coisas assim: 1) o misto de drible e de finta com que Roger, do Fluminense, descartou, no mesmo gesto, três jogadores do Atlético-PR. Um lance de intensa magia; 2) O gol de Nonato, do Bahia contra o Atlético Mineiro: espremido entre dois zagueiros, com um mínimo de espaço e menos ainda de tempo, Nonato recorta com a bola um ''chapéu de aba curta'', deixa imóvel o rival e, no ato seguinte, desfere um chute sem-pulo, preciso, certeiro. Foi um ato de criação poética que o autor devia copiar em teipe e mandar pro Felipão com uma dedicatória: ''A Felipão, com admiração e respeito...''; 3) O gol de falta, cobrança irrepreensível do jovem Ricardo Bovio, no jogo Sport, 3 x Vasco, 3. A bola percorreu mais de 25 metros, em aceleração maravilhosa; 4) A bela trama dos atacantes do Flamengo, pintando e bordando na área do América Mineiro, com uma sucessão de passes curtos e velozes. Uma brilhante ação coletiva que acabou frustrada no chute impreciso de Reinaldo; 5) O chute com que o canhoto Carlinhos, do Inter, encaixou a bola no ângulo superior direito do goleiro Alexandre, da Ponte Preta.
Longe de mim pensar que o campeonato brasileiro seja um primor, esteticamente falando. É evidente a escassês de talento individual. Mas, justiça seja feita: o jogo tem sido franco, haja vista a média de cerca de três gols por partida. Além disso, o ardor de todos os times tem emocionado o público, tanto que, ao contrário da temporada passada, a frequência aos estádios é crescente. E se isso não é a glória, não deixa de ser um alento, justamente nesses dias sombrios que nos tem feito viver a seleção de Felipão.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- De um amante do futebol, descontente com o Felipão pra quem quanto mais falta melhor: ''Se ele, um dia, vier a nos faltar, falta não nos fará.''
- Zizinho faz 80 anos: é o próprio futebol brasileiro fazendo aniversário.
- Fui ver, de perto, a festa de inauguração da Fundação Gol de Letra, em Itaipu, Niterói. Lá estavam Leonardo e Raí, felizes da vida, cercados de crianças e de amigos, todos apostando no sonho dos dois. Raí e Leonardo são exemplos notáveis de craques e de cidadãos, num esporte repleto de egoísmo, de narcisismo, de alienações. Meus respeitos, caríssimos Raí e Leonardo.
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Colaborou Andréa Escobar
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