UMA NOITE DEPLORÁVEL


Peço licença aos caros leitores pra deplorar, do fundo do coração, a noite de bola-ou-búrica da seleção do Felipão, quarta à noite, em Buenos Aires. Esqueçamos o escore. Fiquemos com o desabafo do goleiro Marcos que, à saída do campo, queixava-se de que seleção passara o segundo tempo inteiro a responder com chutões desvairados os ataques sucessivos da seleção argentina. Estranho que o nosso goleiro não soubesse que esse era o plano tático de Felipão, sobejamento ensaiado na fazenda Comary. Nada, pois, a acrescentar à crítica do goleiro brasileiro.
Quem sabe a derrota possa levar o técnico Felipão a rever seus critérios, em respeito à tradição do futebol brasileiro. Ele declarou que o futebol-arte está morto. Espero que o tempo e os fatos o desmintam, embora Felipão disponha de todos os meios e métodos pra matar, com as próprias mãos, uma das poucas fontes de alegrias e de sonho do povo brasileiro.

APOIO AÉREO

Guga jogava contra o espanhol Albert Costa. De repente, a quadra foi invadida por uma espessa nuvem de mosquitos. Reparei uma coisa insólita: o tempo todo, os mosquitos só molestavam o espanhol, o qual chegou a reclamar com o árbitro de cadeira. A mosquitaria não o deixava em paz. Guga, por sua vez, continuava a trucidar o rival, indiferente ao mal-estar vivido do outro lado da quadra. Os mosquitos sobrevoavam Guga, mas não pousavam nele. Estariam torcendo por Guga? Afinidades tropicais? Quem sabe? Cada um torce como pode. Lá em cima, uma pequena e ruidosa platéia apoiava o brasileiro. Na hora, me lembrei de uma cena da noite em que o Brasil conquistou o mundial de 58. Numa churrascaria festiva de Ipanema, muito chope, algazarra geral. Lúcio Rangel, crítico musical e meu querido amigo, vê alguém, na mesa ao lado, a enxotar, com chicotadas de guardanapo, um enxame de moscas:
- Por favor - pede Lúcio - não maltrate as bichinhas. Elas também são campeãs do mundo...

CARTOLISMO

Nos bons tempos do futebol, a expressão cartola não tinha a conotação pejorativa dos dias atuais. Era, apenas, um sinônimo de dirigente, mais precisamente, de paredro, que era a denominação preferida pela crônica esportiva. O cartola era um ricaço que torcia como qualquer mortal da arquibancada. Sócio do clube, logo se distinguia pela generosidade com que premiava os craques a cada conquista épica da equipe. Antes de ser aceito pela torcida e pelos jogadores, o cartola tinha que praticar, exaustivamente, o mecenato.
A expressão talvez tenha sido inspirada pelo Fluminense, que, nos anos 40, aparecia nas charges do humorista argentino Molas representado por uma cartola. O traço aristocrático do clube das Laranjeiras acabaria emergindo do cartunismo para virar substantivo masculino e sinônimo de dirigente.
Conheci, de perto, muitos cartolas. Eram todos muito bem postos na vida. Assumiam a direção do clube movidos pela paixão. É claro que rolava também na figura do mecenas uma boa dose de narcisismo. Afinal, gostar de aparecer é um traço marcante de todo ser vivo. O canto do galo, ao alvorecer, o que é aquilo senão um acesso de puro narcisismo? O que contava, de fato, na vida do cartola de então era o amor que nutria pelo clube. Por uma vitória, por um título de campeão, verteria sangue, suor, lágrimas, verteria a própria fortuna.
Quantos e quantos vi passar da riqueza à mais atroz pindaíba porque deixaram de lado seus negócios e se entregaram de corpo, alma e bolso ao clube do seu coração.
Resumo da ópera: o cartola do passado era alguém que entrava no clube, um cidadão rico, e, anos depois, ia embora pra casa, com uma mão na frente e outra atrás; hoje, o cartola entra no clube, teso, com as duas mãos na frente e, quando sai (quando é saído) sai botando dinheiro pelo ladrão. Bem que devia sair com as duas mãos atrás, devidamente algemado. Se houver exceções, dou, aqui e agora, as duas mãos à palmatória. É claro que há, mas talvez dê pra contar nos dedos.

RÁPIDAS E RASTEIRAS

- Eu que venho de outras eras sinto-me feliz de estar inaugurando um novo tempo em minha vida profissional: tempo de Internet. Troquei a Lettera 22 por um laptop. Teclado silencioso, tela luminosa, leitosa. Segundo movimento: entra no ar a Revista do Armando Nogueira, endereço: www.armandonogueira.com.br. Registro, com satisfação, a chegada de muitos e-mails, todos de estímulos à vida longa do site. O primeiro vem de meu bom Gastão Mattos, confessando que ''a VISA se sente orgulhosa em apoiar o site''. Gratíssimo pela força.

- O Sportv fez uma enquête pra saber dos assinantes se craque demais no time atrapalha. Setenta e tantos por cento responderam que atrapalha, sim. Fiquei perplexo com o resultado da pesquisa. De onde vem tamanha insensatez? Há dezenas de exemplos que reduzem a pó essa opinião.

- O atacante Ramon confessa-se desvanecido porque, em nota recente, apontei-o como o mais perfeito cobrador de falta, por cima da barreira. Minha opinião é baseada em fatos: em cada cinco, Ramon encaçapa três. Em sua carreira, já marcou 53 gols assim. É um aproveitamento excepcional.

- Anna Kournikova, a musa do tênis mundial, casou-se com o jogador russo de hockey Sergei Fedorov. Rola pelas quadras um sentimento de inveja mesclado de amor traído.
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Colaborou Andréa Escobar
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