Na Grande Área - Armando Nogueira
NOITE DE PERDÃO
Os argentinos estão na bronca porque sua seleção joga contra o Brasil, hoje, sem Batistuta. Uma pesquisa do jornal Olé revela que 68 por cento gostariam de ver seu ídolo no lugar de Hernan Crespo. Vejam só o que é a vida: nossos vizinhos sofrem por uma piccola injustiça. Afinal, não chega a ser calamitosa a escolha do técnico Bielsa. É um craque pelo outro. Pior é por aqui, amigos. Já pensou nas extravagâncias do nosso Felipão? Juninho Paulista, Edilson, Zinho no esplendor, Vampeta, na reserva!
Sei de gente que pensa como Scolari, pelo menos, a respeito de Juninho Paulista. Dizem que ele não marca ninguém. É o caso de perguntar: por acaso, Ariel Ortega dá uma de sanguessuga na seleção argentina? Que eu veja, Ortega não marca ninguém. É, lá, o que sempre foi aqui Juninho: um atacante intuitivo, ousado, que não teme pontapé de ninguém. Vai em frente, com a bola dominada, desterrando defesas. Um jogador de tais características nunca pode ser ignorado. A qualquer momento, Juninho, como Ortega, sofre uma falta a entrada da área. Um chute dali é meio-gol. Um sufoco pro adversário. No banco, será de grande valia na hora de mudar o ritmo de uma equipe. O que deploro é que Juninho Paulista não tenha sido chamado nem mesmo na condição de reserva.
Hoje, em Buenos Aires, ninguém espera grande coisa da seleção de Scolari. Que fique bem claro: a seleção é do Felipão. Minha é que não é, nem será, mesmo que vença. Do Brasil, também não é. Se fosse, não teria a defendê-la nem Cris, nem Roque Junior, nem Eduardo Costa. Um deles, isoladamente, talvez. Todos juntos, só mesmo com um plano tático cujo item principal é matar a jogada.
Ah, os bons tempos da Copa Roca em que Brasil e Argentina se alternavam no pódio, com exibições majestosas. O futebol dos dois era parelho. Mas parelho nas alturas. Nos anos 40, a hegemonia sulamericana era da Argentina, com os fenomenais Pedernera, Moreno, Sastre e Garcia e mais tarde um pouco, com Di Stéfano, Mendez, Labruna e Lostau. O predomínio passaria a ser do Brasil, com a chegada da geração Pelé-Garrincha, na década de 50.
Hoje, o futebol brasileiro está reduzido a um monte de heresias proferidas em alto e bom som pelo próprio treinador da seleção. A nova ordem tática é trocar a arte pelas artimanhas e fazer falta, muitas faltas. Esse é caminho do triunfo. Quem sabe o caminho do abismo derradeiro.
DE MÃE PRA FILHO
Guga e Mirnyi jogaram tênis de luxo, no US OPEN. Eram duas escolas em confronto: o russo, sacando e voleando, e Guga, sacando e desferindo passadas magistrais. Flushing Meadows viu, naquela noite, uma partida de brilho e tensão. Contribuiu pro tom épico da noite a figura de dona Alice, no alto da tribuna, a desdobrar fibra por fibra o coração. Guga perdia de 2 sets a 0 e passava maus bocados no começo do terceiro. Dona Alice cerrava os punhos, mordia os lábios. Guga tinha um olho na bola e outro na mãe aflita. Ela gritava, o filho, lá em baixo, enfiava um ace no russo. Ela aplaudia, em pé, Guga despachava uma cruzada rasante. E assim, Guga entraria em estado de graça, ungido pelo sopro abençoado de dona Alice. O quinto set seria o da sublimação, da fluidez, do requinte, enfim, da consagração. Quando Guga, já vitorioso, subiu na grade e foi beijar dona Alice, que sem desanimar o exortara tanto, eu dei razão a mestre Machado: ''O amor materno é a melhor retórica deste mundo.''
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- A partir de agora, sinto-me mais seguro pro trato diário com as palavras. Eu que já tenho uma prateleira cheia de dicionários, acabo de receber, do velho amigo Robert Feith, o novo Houaiss, da Editora Objetiva. Um belo reforço nos andaimes que sustentam, de pé, o meu ganha-pão.
- Pete Sampras, que parecia farto de tênis, reaparece no Aberto de Nova York, jogando uma barbaridade. Que o diga Patrick Rafter, amplamente derrotado numa partida do melhor saque-voleio.
- Uma gratíssima revelação: Leivinha estreou, domingo passado, como comentarista do Sportv. O ex-craque, herói do Palmeiras, bateu, no ar, uma bola redondinha.
- Alguns analistas americanos fizeram restrições ao tênis de Guga. Nada que pudesse ofender os brios nacionais. Dizer que Guga é um tenista monotemático, no sentido de que é um especialista de um piso só, o saibro, não chega a ser ofensivo, mas caberia a pergunta: por que a crítica não diz nunca disse! a mesma coisa de seu ídolo Sampras? Pete Sampras não joga no saibro a metade do que está jogando no cimento o nosso Guga. Só pode ser chauvinismo e chauvinismo barato.
- Quem gosta de voar tem que conhecer duas novas jóias da aviação esportiva, recentemente incorporadas à frota aérea do Clube CEU, no Rio: o 'Sova', um avião tcheco de requintada tecnologia, e o 'Storm', esse italiano, também asa baixa e também de alta performance.
- Uma correção: o árbitro que apitou Brasil x Chile, semifinal da Copa de 62, em Santiago, não foi Esteban Marino, como escrevi, e sim o peruano Arturo Yamazaki. Muda o personagem, mas não muda o script: Abílio de Almeida fez o cara sumir do Chile, na véspera da final, levando na mala a súmula do jogo com o relato da expulsão de Garrincha que, certamente, o tiraria da final com a Tchecoslováquia.
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Colaborou Andréa Escobar
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