Na Grande Área - Armando Nogueira
O COMEÇO DA FALÊNCIA
Muita gente me escreve, angustiada com a crise moral do futebol brasileiro. Todos querem ver Ricardo Teixeira fora da CBF. É compreensível o mal-estar da nação esportiva. Contudo, não há muito que fazer, assim, da noite pro dia. A hipótese de intervenção do governo, que pra alguns seria a melhor saída, essa, amigos, nem é bom pensar. Vejamos, rapidamente, o tamanho da encrenca. Primeiro, que seria bater de frente com a Constituição. Teixeira ganharia a parada no Supremo, fácil, fácil. Depois, viria a rebordosa maior: a eliminação da CBF pela FIFA. O futebol brasileiro cairia na clandestinidade. Não teria com quem jogar nem mesmo uma pelada de aterro. A Colômbia já viu esse filme, nos anos 50, com sua liga pirata.
Engana-se quem pensa que a FIFA é a versão futebolística da ONU. A ONU é apenas um clube amável que vive no mundo do faz-de-conta diplomático. A FIFA é uma multinacional super-poderosa que se sobrepõe a todos as formas de governos, a todas as vontades políticas. Ai de quem se meter a fogueteiro pra cima de qualquer cartola, seja no Brasil, seja na Tonga da Mironga. Tenha ou não tenha motivo. Pra FIFA, suas filiadas são intocáveis. A FIFA é flor tão mal-cheirosa quanto a CBF.
Só há um caminho seguro pra uma boa faxina na cúpula do futebol: é reconhecer a soberania do clube. A degringolada política do futebol brasileiro começa com uma emenda de teor demagógico de autoria do deputado Álvaro Valle, acabando com o chamado voto de qualidade e criando o voto unitário. Pra ser bem claro: antes da lei, o voto de um clube tinha um peso político proporcional às suas conquistas no campo esportivo. Era o voto ponderado. Me lembro que o voto de maior peso, na federação carioca, então, era o do Fluminense. Não porque o Fluminense fosse um clube granfino, com uma sede revestida de vistosos vitrais, e sim porque era o clube que mais títulos ganhava, em todas as categorias do futebol, do juvenil, passando pelo aspirante até o profissional.
O voto unitário chegou nivelando todo mundo. Hoje, o Arranca Toco senta nas reuniões da federação paulista e fala tão grosso quanto o Palmeiras ou o São Paulo. Isso é democracia! - berra o Caixa D'Água, esfregando na cara do Flamengo o voto espúrio e acachapante de 200 clubecos sem sede, sem passado, sem futuro. Teixeira, Onaireves, Caixa D'Água, esses cartolas são frutos atrozes de uma velhacaria política. É o voto unitário que os perpetua no poder, seja nas federações, seja na CBF.
Só resta esperar que o governo, em sintonia com o Congresso, ponha ordem na zorra administrativa do futebol, por meio de uma lei ou medida provisória que dê ao clube a possibilidade de virar sociedade anônima. Ninguém seria forçado a mudar. Quem optasse pelo novo modelo receberia benefícios. Uma vez reunidos em liga, os clubes estariam livres dessa coisa abjeta chamada federação.
Já o caso do presidente da CBF, todos reconhecem que é coisa realmente grave, mas que, infelizmente, não se poderá resolver por vias legais. A saída terá que ser eminentemente política. Alguém de boa conversa que topasse tentar amarrar o guizo no pescoço do gatão. E é missão pra já. Nas mãos de Teixeira, todos concordam, a CBF não tem mais um pingo de credibilidade.
GOL DE ABÍLIO
Abílio de Almeida. Este nome certamente é desconhecido das novas gerações do futebol brasileiro. Ele foi, durante décadas, uma espécie de ministro das relações exteriores do nosso futebol junto à FIFA. Operava no invisível. Entre tantas ações diplomáticas de sua carreira, Abílio de Almeida guardava, a sete chaves, uma manobra que pode ter tido o valor de um título de bicampeão mundial. A história assim se passou: na Copa de 62, no Chile, Garrincha tinha sido expulso de campo, na semifinal, contra o Chile. Teria que ser julgado por revidar agressão de um jogador chileno. Na certa, seria suspenso e não jogaria a final, contra Tchecoslováquia. Bastava que a comissão disciplinar lesse a súmula. Mas cadê a súmula? Pergunta a comissão. A súmula só pode estar com o árbitro do jogo. E cadê o árbitro? - insiste a comissão. O árbitro do jogo, informa o hotel, o árbitro do jogo sumiu. Fechou a conta, pegou as malas, às pressas, e já deixou o hotel.
Numa fulminante operação de guerra, Abílio de Almeida tinha embarcado, de volta a Montevidéu, na véspera da final, o árbitro uruguaio Esteban Marino, com súmula e tudo. Sem súmula, Garrincha não podia ser julgado. Resumo da ópera: Garrincha jogou a final, pra variar, comeu a bola, deu um show em cima da Tchecoslováquia. Brasil, bicampeão do mundo.
Abílio de Almeida morreu, há dias, no Rio, com 91 anos.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
Pelé embarcou pros Estados Unidos, a trabalho, levando no colo uma idéia que lhe deu um cientista político e velho amigo: pra liquidar a crise na cúpula do futebol, a saída mais sensata seria a troca de Ricardo Teixeira por ele, Pelé, com apoio unânime das federações. - Meus queridos leitores querem me levar à loucura. Primeiro, me contestaram, quando escrevi, de boa fonte, que o uruguaio da cotovelada de Pelé, em 70, tinha sido o Fontes e não o Matosas, como andei publicando. Agora, pingam e-mails, uns jurando que o homem fora mesmo o Matosas; outros, no mesmo tom eloquente, garantem que o cotovelado foi UbiÀas, o lateral direito. E agora, gente?
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Colaborou Andréa Escobar
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