O PARCEIRO DO BRAGA



O nome da semana é Almeida Braga, um homem do futebol, do vôlei, do basquete, do tênis, do cuspe-em-distância. Um cidadão do esporte que os amigos estão homenageando, desde segunda-feira. Entre as pessoas queridas dele, a vida inteira, figura Nelson Rodrigues. O suplemento especial do JB, publicado anteontem, justamente pra louvar o personagem, transcreve crônica dos anos 60 em que o Nelson conta, com muita graça, a odisséia do Braga e de um amigo comum. Os dois pegaram um avião no Rio e se mandaram pra Portugal, onde a seleção jogaria uma partida amistosa, principiando longa excursão pela Europa.
Até ai, tudo verdadeiro. Daí em diante, principia o delírio de Nelson, o mestre incomparável na arte de inventar situações patéticas. Passo a palavra a ele: ''Quando chegaram ao estádio, o jogo já começara e o pior: o jogo já estava no segundo tempo. Lotação esgotada... e nem sombra de cambista... Realmente, a coisa tinha a ironia da crônica de Eça de Queiroz sobre o Kaiser. Dois brasileiros enfrentam as procelas camonianas, cavalgam todo um oceano e, finalmente, ficam do lado de fora, ouvindo radinho de pilha.''
No final da crônica, o parceiro de infortúnio de Braga cai na descrença dos maus lençóis porque, depois de posar entre os leitores e amigos como a privilegiada testemunha de um jogo do Brasil que ninguém por aqui vira, eis que o Braga sai contando pra todo mundo, tim-tim por tim-tim, o tremendo fiasco dos dois. Quer dizer: tinha tudo pra dar certo a versão fantasiosa.
Volto à crônica pra que o Nelson lance a pá de cal sobre os ''restos morais'' do desventurado colega: ''E eis o colega a se despir de sua autoridade de enciclopédia, de sua infalibilidade de Bíblia. Não é mais a impressionante testemunha ocular e auditiva, mas apenas um brasileiro que atravessou um oceano para ouvir radinho de pilha''.
O brasileiro cujo nome o Nelson omitiu era precisamente este pobre marquês de Xapuri, naquela época um mero e jovem cronista de futebol que não tinha um pingo de ''fair play'' pra tirar de letra a deliciosa perfídia de um cronista genial. Acontece que Nelson me poupou no livro, mas não me poupara no jornal, nem na tevê. Aquilo me pegou no fígado. Resultado: passei uns cinco anos sem falar com Nelson.
Azar o meu. Perdi, certamente, um bom tempo de convivência com alguém que sempre foi, antes e depois da morte, uma preciosa lição de vida.
PINGOS DO BRASILEIRÃO
A) Corinthians e Flamengo dissimulam. Zagallo e Luxemburgo, principalmente, Luxemburgo, acham que as derrotas do momento não pesam muito porque, mais adiante, os times entram nos eixos. Será? Acontece que, já-já, a pauleira ficará mais feroz. Os adversários serão mais qualificados que o Botafogo-SP. Vai ser difícil recobrar pontos perdidos nos jogos das primeiras rodadas. B) A sétima rodada foi repleta de 1 a 0, mas, como registrou, também, alguns jogos de quatro e cinco gols, acabou melhorando um pouquinho a média de gols: 2,5; semana passada, tinha ficado em 2,4; C) Por incrível que pareça, ainda há dois invictos num campeonato de times sem maior envergadura. São eles Santos e Fluminense, ambos às turras com suas torcidas, justamente, por andarem jogando mal; D) O time do São Paulo voltou a encher os olhos, jogando um futebol de inteligência ofensiva, graças ao talento de jogadores como Kaká, Leonardo (depois, Carlos Miguel), França e o goleiro Rogério Ceni que continuo a considerar o mais completo do Brasil. Rogério é soberano nos domínios tradicionais do goleiro e, de sobra, ainda cobre sua hesitante zaga com intervenções de autêntico líbero. Só mesmo no Brasil de nossos dias, Rogério Ceni não é titular incontestável da seleção nacional; E) Vi o time do Inter jogar contra o Guarani, em Campinas. Embora se saiba que o Guarani vai de mal a pior, deu pra perceber que Parreira está dando jeito no time gaúcho. Nada de excepcional, mas, pro que era, no começo, o Inter ganhou padrão de jogo e auto-confiança. Está sem perder há cinco partidas: quatro vitórias e um empate; F) Falo acima da ausência de Rogério na seleção como tremenda injustiça. Mas há outra não menos clamorosa que é ver Juninho Paulista, a mofar no banco de reservas, vendo o tanto que esse rapaz joga no time do Vasco da Gama. Domingo, contra o Atlético-PR, ele jogou um portento. Não quero mal a ninguém, nem neste, nem no outro mundo, contudo, gostaria de ver o que dirá Scolari quando o Senhor o entrevistar no Juízo Final. Deus gosta de futebol e adora craque; G) Um time que começa a se afinar é o do Atlético-MG. Não é por acaso que está criando raízes na liderança do campeonato. Ainda é cedo, porém, pra cantar de galo...; H) Eurico Miranda, ao perder força moral, perdeu força política no futebol brasileiro. Agora, sempre que puder, o general da banda podre tentará tumultuar o campeonato, tal como fez, domingo, atropelando o jogo principal com uma preliminar, além do mais, de caráter amistoso, entre garotos do Vasco e não sei quem mais. Estamos tendo que lidar com o mensageiro do caos; I) O cruzeiro tirou o pé da lama, ganhando, Deus sabe como, um jogo de baixo teor técnico contra o Sport, em Recife. Não vi o jogo, mas, pelo que ouvi do comentarista Gonçalves, no Sportv, o time do Cruzeiro ainda vai engolir muita poeira até poder respirar. Tudo indica que Rincón e Edmundo foram um duplo tiro n'água. J) Aplausos mil ao futebol de Zinho, na sétima rodada. Zinho é vinho de casta nobre.
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Colaborou Andréa Escobar
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