Na Grande Área - Armando Nogueira
SELEÇÃO DE SOBREVIDAS
A seleção saiu do buraco negro. Não jogou bem, mas venceu. Vinha sendo pior: jogava mal e perdia. Não deixa de ser um prêmio de consolação pra quem quer o Brasil na Copa do ano que vem. Mas, francamente, que não seja jogando o futebol que jogou quarta-feira. O desabafo do Felipão, depois da partida, diz tudo: ''Ganhei uma sobrevida!'' É de esperar que o técnico seja reconhecido a quantos contribuíram pra semelhante sobrevida. Nunca tantos ajudaram tanto a melhorar a barra de uma seleção. A Venezuela deu uma mãozinha, derrotando o Uruguai por um impensável 2 a 0. A Argentina fez a mesma coisa, dando de dois a zero no Equador, que vem mordendo o calcanhar brasileiro na parada eliminatória. No próprio jogo, o árbitro alemão deu uma ajuda expressiva, preferindo não ver que Rivaldo cortou com a mão espalmada uma bola em plena grande área. Um pênalti deslavado. O público também deu uma força, torcendo com fervor patriótico. Mas como patriotismo tem limites, em dado momento, o estádio começou a vaiar. A seleção jogava pedrinhas. Acabou salvando a pele graças a uma jogada de pura intuição de Denílson: uma finta, um drible, um centro preciso, a cabeçada de Rivaldo.
Uma coisa, porém, deve ficar bem clara: a equipe que jogou em Porto Alegre ainda não é a seleção do Brasil; é a seleção do Felipão. Competitiva, sim, antolhada, pois não, e sem um tostão de brilho coletivo, de categoria técnica. Enfim, uma equipe sujeita a sobrevidas e a sobremortes também.
GOTAS DO BRASILEIRÃO
Impressões que me ficaram das cinco primeiras rodadas do campeonato brasileiro: 1) Não apareceu, até agora, uma equipe capaz de encher os olhos de ninguém; 2) Apesar da praga retranqueira de três zagueiros e dois ou três cabeças-de-área, coisa comum à maioria das equipes, a média de 2,4 gols por jogo chega a ser aceitável; 3) Observei que os times andam chutando muito mais vezes de fora da área, o que não é da índole do futebol brasileiro. Explicação: a nova bola é bem mais leve. No chute de longe, a bola vem serpenteando no ar. Por isso, já foi batizada pelos jogadores de ''desemprega-goleiro...''; 4) A arbitragem vem sendo complacente com a estupidez dos carrinhos por trás; 5) Não apareceu um único jogador que deslumbrasse as platéias, com jogadas espetaculares: estão todos nivelados no plano rasteiro da mediocridade; 6) As torcidas mais solidárias com suas equipes parecem ser as dos times paranaenses; as mais intolerantes e hostis, disparado, são as paulistas e cariocas; 7) A medida mais esdrúxula de um cartola, até aqui, foi a demissão de Joel Santana: Eurico Miranda trocou-o justamente pelo técnico Hélio dos Anjos a quem o dito Joel havia derrotado, dias antes, por um alarmante sete a um; 8) Marcelinho revelou-se a ovelha negra do rebanho corintiano: injuriou colegas e acabou fora do time e do clube: atleta de Cristo com o diabo no corpo; 9) O pior gramado do momento é o do Mané Garrincha, em Brasília. Falta de consideração pelo herói que dá nome ao estádio; 10) Outro campo em petição de misérias é o do Mineirão, mas, ao que sei, a grama foi atacada por uma peste tão nociva quanto as travas das chuteiras do Cris, cruz, credo; 11) Que as próximas rodadas possam ser mais promissoras.
Amém!
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- O Bebeto está tão empolgado com a volta ao futebol que comprou chuteiras novinhas em folha, e um dia, ao chegar do treino, passou a tarde com a camisa do Vasco, presente de Denise, sua mulher. Afinal, foram oito meses de abstinência. Com a contusão do Romário pode ser que sua estréia com a camisa cruz-maltina seja antecipada.
- Amanhã, Raí e Leonardo comemoram os dois anos da Fundação Gol de Letra. Parabéns pelo belo trabalho!
- Denílson foi a pitada de sal na insossa exibição brasileira contra o Paraguai. O bom-gosto agradece, de joelhos, a chance que o estilo bate-estaca concedeu a um peladeiro excomungado pela tecnocracia do futebol de resultados.
- O técnico Joel Santana, no desvio, me mostra, com bom humor, o telefone celular: ''É o meu trunfo. Durmo com ele no travesseiro. Tocou, pode ser de madrugada, eu atendo. Emprego não tem hora pra bater na porta da gente.''
- Armando Marques foi um árbitro de mão cheia: idôneo, sabia tudo de regra. Fez história. Hoje, na pele de cartola, foge da imprensa como o diabo da cruz. É uma pena porque a comunidade dos árbitros fica sem voz. Ninguém mais autorizado, ninguém mais articulado que Armando Marques pra defender, justamente, a categoria mais maltratada do futebol brasileiro.
- A chance brasileira de classificação subiu pra 88,2 por cento: antes do jogo com o Paraguai era de cinquenta e poucos. Os outros seguem assim: Argentina, já classificada; Paraguai, 98 por cento; Equador, 84,9; Uruguai, 22,3; Colômbia, 6,6 por cento. Como os concorrentes mais próximos perderam e perderam feio, o Brasil, vencedor do Paraguai, atravessou a semana, ganhando nada menos de l2 pontos. Só pode ser a força da predestinação.
- Quem liga o telefone pra falar com Carlos Alberto Torres naturalmente está relembrando a conquista do tri, no México. Os quatro últimos algarismos do celular do grande 'capita' são 7070.
- Depois de dois anos no estaleiro, volta à Internet, nos próximos dias, a homepage 'Revista do Armando Nogueira', no seguinte endereço: www.armandonogueira.com.br. Meu parceiro no projeto é o Cartão Visa que a patrocina. Meus leitores são mais que bem vindos ao meu site.
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Colaborou Andréa Escobar
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