MAIS UMA LIÇÃO...


Positivamente, Guga escapa à minha vã sabedoria. Participo a meus leitores que desisto de julgá-lo. De hoje em diante, pelo menos durante a partida, vou passar a ficar na minha. Torcerei, sem me meter a dar palpites, como aconteceu no jogo dele com o russo Kafelnikov. O que tem acontecido é que meu olhar vaza medo, o medo que turva a visão e me deixa mentalmente cristalizado.
Foi o seguinte: Guga jogara um primeiro set irrepreensível. No segundo, baixou a guarda e o russo agigantou-se. Kafelnikov é um tenista de primeira. Quando acerta a mão, sua bola de fundo de quadra anda tanto e com tanto peso quanto a de Guga. Assim, penso eu, não vai dar pro Guga, hoje. Vem o terceiro set, decisivo. A feição do jogo não muda: Kafelnikov faz 2/0, comanda todos os pontos, saca melhor, pressiona Guga em asfixiantes subidas à rede. Guga não encaixa o primeiro serviço. A situação é dramática: 0/40, se o russo quebra-lhe o serviço, faz 3/0 e, fatalmente, vai sacar pra chegar a 4/0. É ai que entro em cena, eu mesmo, o idiota da objetividade, como diria Nélson Rodrigues. Desando a falar bobagens, dizendo aos amigos em volta da tevê que não tem mais jeito, que Guga já está perdido. O melhor, mesmo, é tocar um tango argentino ou, então, sair pra jantar. Alguém da poltrona ao lado reage, com eloquência: Negativo! O Guga vai sair dessa, mais uma vez! E não é que em apenas um minutinho mágico, Guga reverte a situação aflitiva, e ganha o game que eu pré-julgara perdido? Faz 2/1. Mas ainda é pouco, muito pouco pra minha combalida esperança. O diabo do russo não esmorece e mantém a vantagem conquistada na quebra de serviço.
Em poucas palavras: logo adiante, Guga ignora a adversidade e, com a têmpera dos grandes heróis do esporte, me enfia goela abaixo uma saraivada de aces, de winners, de deixadinhas, que me deixam subitamente fanatizado. Kafelnikov, por sua vez, antes tão devastador, de repente começa a entregar os pontos: o braço direito encurta, o semblante murcha, o olhar é de quem sabe que acaba de perder um jogo que ele pressentira já no papo. Kafelnikov, tanto quanto eu, não entende nada de Guga. Pra desventura do russo, mas pra completo júbilo deste pobre marquês de Xapuri, Guga dá um show de técnica e de força mental.
O desfecho do torneio de Cincinnati culminaria com a assombrosa performance de Guga que, no mesmo dia, derrota o maior tenista de saque voleio, depois de Sampras, que é o excelente e fidalgo Pat Rafter. Isso, meia hora depois de ter arrasado o inglês Tim Henman, o tenista que vem logo abaixo do australiano no gênero saque-voleio.
Em cada jogo, Guga me dá uma nova lição de transcendência.

A ALMA DA SELEÇÃO

Uma sondagem da Rádio Globo revela que 60% da torcida brasileira acreditam na vitória da seleção, hoje, contra o Paraguai. É sinal de otimismo, sem dúvida, mas, o percentual de descrentes ainda é muito alto. Quase a metade. Não me lembro de ter vivido momento mais sombrio na história da equipe do Brasil. E não se trata de derrotismo. A sucessão de fracassos é calamitosa. Vem de longe. A perda de credibilidade era inevitável. A derrocada abalou craques renomados, jogadores em ascensão, treinadores consagrados. A chegada de Felipão, louvado como a salvação da pátria, acabaria estigmatizada por derrotas acachapantes como as da Copa América. A rapaziada da seleção dissimulou o quanto pôde, mas a verdade é que Honduras feriu fundo a auto-estima de todos nós.
A equipe de hoje, no Olímpico, é um enigma. Em verdade, a seleção não tem sido outra coisa, nos últimos jogos. Qualquer adversário, forte ou fraco, França ou Panamá, tem sido um tormento na vida do futebol brasileiro. Já se trocou de camisa, já se trocou de time, zagueiros, volantes, atacantes, trocou-se de tática, só não se trocou de alma porque esse bem maior, que é essencial, a seleção já não tem, faz tempo.
Mais que nunca, é preciso reencontrar, hoje, a qualquer preço, a alma da seleção brasileira.

RÁPIDAS E RASTEIRAS

- Lembra-se o caro leitor da profecia de que, até o meio do campeonato, cairiam 20 treinadores? Na segunda rodada, já despencaram três, entre eles o autor da predição, Joel Santana, do Vasco da Gama. É o velhaco expediente da cartolagem. Quem será a bola da vez?

- Do jeito que passou a andar, vindo do fundo da quadra, a bola do tênis, o jogador de saque-voleio está virando espécie em extinção.

- Paulo Sérgio Valle (Samba de Verão, Viola Enluarada e tantas outras pérolas da MPB) autografou, ontem, no Rio, ''O Segundo Sudoeste''. Quem não conhece o Paulo precisa conhecer, com urgência. Como diria Araci de Almeida, o Paulo é uma criatura sobre a qual não resta a menor dúvida.

- A arbitragem do Brasileiro tem deixado o sarrafo comer solto. Os trogloditas não toleram ver craque de pé.

- Eu daria tudo pra poder ver, no juízo final, o Felipão tentando explicar ao santo de plantão porque ele barrou da seleção os dois Juninhos, então, tidos por todo mundo como craques irretocáveis. Desconfio que alguém será barrado lá cima...

- A praia de Ilha Bela está recebendo, esta semana, uma visita ilustre: Robert Scheidt. Ele se refugiou na praia paradisíaca pra espairecer, depois de conquistar o pentacampeonato mundial de Laser.
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Colaborou Andréa Escobar
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