UMA BATATA QUENTE


Os quatro gols de Romário contra o Guarani sobraram pro Felipão. E não é pra menos. Os dois de pênalti não contam, mas os outros dois, amigo, só reafirmam a verdade irrefutável de que, ali, na grande área, Romário continua a ser irresistível. O chute de sem-pulo, então, foi uma obra de engenho e arte. Romário pega a bola, ainda no ar. Sai-lhe, então, um chute potente e certeiro. Poucos jogadores no mundo são capazes de executar, com perfeição, chute de tamanho controle sobre o espaço e o tempo. O sem-pulo é primo-irmão do voleio, que vem a ser um dos golpes mais difíceis do tênis.
O outro gol vale pelo senso felino do craque que, mesmo aquém da forma física ideal, teve agilidade física e mental pra dar o bote e tocar a bola gol a dentro, em fração de segundo.
Agora, o técnico Felipão vê-se com uma batata quente nas mãos. Tem uma brecha à vista, é verdade. Se não vier nenhum ‘exilado’ europeu, é quase certo que Romário seja chamado às pressas. O diabo é saber se ele aceita ser tratado como sobejo. Romário sempre teve, com qualquer treinador, um convívio de fio da navalha. Ele superestima, como ninguém, as imunidades do talento. Nunca admitiu o papel de reserva, seja em clube, seja em seleção. Se não for o protagonista principal do espetáculo, o técnico pode tirar o cavalinho da chuva que no banco de reservas não o verá jamais.
Certa moça com quem conversei, ontem, me dizia que adora futebol e me pediu que lhe dissesse, em poucas palavras, se Romário, com 35 anos, ainda joga bem. Respondi que, a bem da verdade, Romário não joga futebol já há algum tempo. Pelo menos, no que o jogo tem de participação, de ação coletiva. Hoje, Romário é, digamos, um minimalista: ele alcança o máximo de rendimento no mínimo de espaço, e no mínimo de tempo. Não há melhor exemplo de economia de gestos e de energia no futebol.
A rigor, Romário cumpre, hoje, no ocaso da carreira, o conselho de seu velho pai, quando ele, menino ainda, começava a jogar pelada de rua: ‘‘Meu filho, o melhor lugar pra você jogar é bem pertinho do gol.’’ Nos tempos fogosos da juventude, Romário ainda se permitia contrariar o pai, vindo cá atrás em busca de uma bola que tardasse a lhe chegar, a contento, lá na frente. Ultimamente, com o peso dos anos e das noites boêmias (a noite circula nas veias de Romário), ele já não esperdiça uma passada sequer além dos limites da grande área. ‘‘Aqui é o meu reino e daqui ninguém me tira’’ – deve pensar o craque.
Volto à moça com quem conversei pra dizer, agora, o que não lhe disse ontem: só alguém com a centelha do gênio é capaz de fazer o que faz Romário, na usura de tempo e de espaço de um lugar sempre congestionado como a entrada da área. Posso lhe assegurar, bela moça: de tudo que tenho visto dele, Romário já fez toda classe de gol que se queira imaginar: sem-pulo, de peito, de coxa, burilado, de cabeça, de calcanhar, de pé direito, de pé esquerdo, bola morta, bola viva, correndo, estático, de bico. Que eu saiba, Romário só ainda não fez gol-contra...
Hoje, depois dos 35 anos, portanto, na terceira idade do futebol, Romário já nem comemora seus gols com transbordamento. Quando muito, ergue os braços retesados, numa contida efusão. Lembra um poeta, no instante da mais pura inspiração. Faz um gol como quem faz um verso.

BRASIL VAI À COPA

Oswald de Souza, o matemático do futebol, faz as contas, afirma e assina embaixo: o Brasil estará, com certeza, na Copa do Mundo de 2002. Montadas as equações de arranjos e combinações, diz ele ter chegado às seguintes verdades: 1) o Brasil se classifica, com uma margem de risco desprezível; 2) a Argentina já está garantida; 3) O Paraguai, pelo que fez até aqui, já estaria mais pra dentro que pra fora da Copa; 4) a quarta vaga será uma briga de foice no escuro entre Colômbia, Equador e Uruguai. O segundo da refrega vai a Austrália na repescagem.
– Nesse triângulo da morte – assegura o matemático – quem vencer duas partidas estará salvo. O Equador, ganhando apenas uma, já alcança uma posição confortável. Em suma, dos três, um se classifica, outro pega a Austrália e o terceiro se quiser, vai ver a Copa na televisão...

RÁPIDAS E RASTEIRAS

- Guga devolveu a derrota que lhe aplicara o jovem americano Andy Roddick, semana passada. Ainda assim, não consigo ver Guga muito à vontade em quadra rápida. Ele me parece inseguro, o braço preso de quem põe a bola em jogo, apostando no erro do adversário.
- Um esporte que ainda vai dar muito que falar (de bom) no Brasil é o handebol. São cem mil jogadores registrados na CBH e mais cerca de 50 mil garotos e garotas, jogando torneios colegiais pelo país inteiro.
- Ainda o handebol: a essa altura, o Brasil já é o número um do ranking entre os países sul, centro e norte-americanos.
- No jogo com o Atlético-PR, Edmundo inutilizou praticamente todos os ataques cuja bola passasse pelos seus pés sempre mal-humorados. Em vez de assumir o ônus de sua tarde obscura, Edmundo deixaria o campo, dizendo-se perseguido pela arbitragem. Arbitragem coisa nenhuma! Edmundo tem jogado, no Cruzeiro, o mesmo reles futebol que andou jogando no Nápoles quando foi eleito o pior jogador estrangeiro do campeonato italiano da última temporada.
- O Vasco da Gama contrata Bebeto, 37 anos de idade, quase um ano sem saber o que é jogo de súmula. Um tiro no escuro ou um tiro na mosca? Eis a questão que só o tempo é capaz de decifrar.



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