Na Grande Área - Armando Nogueira
SELEÇÃO OU PROCISSÃO?
Há um antigo personagem do humor chamado comendador Ventura: na aparência, ninguém é mais sereno, mais otimista; por dentro, é um vulcão, cuspindo fogo por todos os lados. É assim que vejo as entrevistas de Felipão. Da boca pra fora, as águas da seleção não podem estar mais plácidas; no íntimo, o técnico deve estar se roendo todo, coitado, sem saber quem escalar pros próximos jogos: o amistoso, com o Panamá e o indigesto, com o Paraguai.
A verdade nua e crua é que passam-se os meses e o Brasil não consegue ter uma equipe definida. É uma situação sui-generis no futebol do continente. Qualquer peladeiro de Buenos Aires escala, de cor, a seleção argentina. O Paraguai repete a mesma equipe, basicamente, desde o mundial de 98, na França. A Colômbia e o Equador, forças que já se destacam no futebol sulamericano, têm, hoje, suas equipes prontas e acabadas.
O Brasil, logo o Brasil, ainda não definiu, sequer, o figurino tático de sua seleção nas eliminatórias: ora, arma-se com quatro, ora, com três zagueiros. Viver semelhante dilema em plena competição, amigos, é ou não é motivo de profunda inquietação? Felipão chega a abrir o jogo pra confessar que só recorre à fórmula dos três zagueiros porque os nossos titulares são tão fracos que não resistem a um confronto direto com qualquer atacante.
Roque Junior e Cris, um dia, ainda me fulminam na poltrona. Se não me matarem de infarto, acabarão me matando de raiva.
Mais adiante, precisamente, na meia-cancha, que é o centro de gravidade de qualquer equipe, a seleção tem sido vítima da esterilidade de Emerson, o capitão, de Rockembak, e de Eduardo Costa, combatentes destemperados que transpiram mediocridade justamente na zona do campo mais refinada do futebol. É ali, naquele pedaço de campo, que tudo de bom se cria. Pobre futebol brasileiro: o que sempre foi fonte de grandes inspirações, é, hoje, um reles beco de penúrias técnicas. A rigor, os volantes até agora escalados não vão além de matar a jogada, velha metáfora que o bate-estaca Emerson, principalmente, pratica ao pé da letra e tome bordoada! Uma dia, ele acaba matando, não a jogada, mas o próprio adversário. Com o tempo, a construção do ataque ou do contra-ataque passou a ser tarefa dos jogadores do flanco. Até hoje, porém, nem o clássico lateral, nem o modernoso ala dão conta do recado, satisfatoriamente. Ambos ficam devendo técnica e taticamente: não operam como armadores e muito menos como pontas.
Resta a considerar a situação dos quatro atacantes legítimos, os dois que apóiam e, eventualmente, finalizam, e os outros dois, rotulados de artilheiros. Quantos jogadores de peso já passaram pela seleção, frustrando-se e frustrando todo mundo, com um rendimento pífio, embora em suas equipes de origem, todos só mereçam aplausos? Uma infinidade, meus amigos, uma infinidade! Vejam só: Adriano, Alex, Amoroso, Denílson, Djalminha, Edilson, Élber, Euller, Ewerthon, França, Geovanni, Guilherme, Jardel, Juninho Paulista, Juninho Pernambucano, Leonardo, Luizão, Marcelinho Carioca, Marques, Ricardinho, Rivaldo, Robert, Romário, Ronaldinho Gaúcho, Sávio, Washington. Se alguém somar os meias e os atacantes à pletora de volantes, de laterais, de zagueiros e goleiros, chegaremos a uma patética conclusão: nas eliminatórias, o Brasil não tem sido uma seleção e sim uma profana procissão.
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- O futebol argentino está mergulhado na mesma pindaíba do brasileiro. A diferença é que a seleção de lá, feita com exilados, está salvando a pátria. A brasileira, pelo contrário, tem sido destroçada, em grande parte, pelos nossos exilados.
- O Cruzeiro está pagando 180 mil dólares por mês ao jogador Rincón. Dá cerca de 400 mil reais por mês. Quanto deve estar ganhando Edmundo? E o argentino Sorin? Pode anotar, amigo leitor: vai acabar em calote. Não há clube brasileiro capaz de suportar por muito tempo uma loucura desse tamanho.
- Marcelo Campos Pinto, diretor da Globo Esportes, braço empresarial da Globo no business esportivo, prenuncia o estouro do futebol europeu, fazendo a seguinte imagem: O futebol europeu é um sujeito sentado numa reluzente Ferrari, correndo a 400 quilômetros por hora, e sabendo que, vinte quilômetros à frente, tem um baita paredão. Realmente, não dá pra esperar outra coisa de um futebol que paga 65 milhões de dólares por um jogador. É quanto custou ao Real Madrid o francês Zidane.
- No meu correio-eletrônico, sobressai uma pergunta: o que é que eu acho da convocação do Tinga. Sinceramente, não tenho sobre Tinga uma idéia completa. Vi-o jogar, algumas vezes, pelo Botafogo do Rio e duas ou três vezes, pelo Grêmio. Francamente, não sei se é o futebol de Tinga que o eleva à seleção ou se é o futebol da seleção que a faz descer ao nível de Tinga.
- É de fazer corar frade de pedra o que tenho ouvido, aqui e ali, sobre o Botafogo F.R. Tem gente achando que as forças do mal que rondam o clube estão depenando o patrimônio alvinegro.
- Convidei um amigo a fazer um vôo comigo. Refugou. Disse que tem tanto medo de andar de avião que, quando morrer, só vai pro céu se for de trem.





