Na Grande Área - Armando Nogueira
Há pouco tempo, escrevi, aqui, uma nota sobre a camisa da seleção. Sou dos que acham que a grande marca da equipe nacional do Brasil sempre foi o craque. O drible, a tabelinha, a finta, o passe de calcanhar, o corta-luz, esses, sim, têm sido, ao longo do tempo, a própria mitologia do nosso futebol. A camisa conta, mas não tanto quanto o craque.
O Felipão acaba de demonstrar que minha teoria é aceitável. Ele trocou e destrocou de camisa, passou do amarelo pro azul, tronou à canarinho, tudo isso em menos de uma semana. Com a amarela perdeu um jogo, com uma e outra venceu dois na Copa América. E, agora, com qual das duas ficamos?
Historicamente, a camisa azul é bem mais antiga. No tempo da CBD, a equipe alternava as duas, embora a titular fosse a branca com o escudo da CBD no peito. A azul tinha status de suplente. Já era igualzinha à de hoje; pelo menos, na tonalidade do azul. Me lembro que, no sulamericano de 53, em Lima, Aimoré Moreira tinha dois times, por sinal, ambos excelentes. Pra não criar crises de estrelismo entre os jogadores, as duas seleções se alternavam de um jogo pro outro. Por exemplo, o Brasil estreou contra a Bolívia, de camisa branca; três dias depois, entrava a segunda seleção, de camisa azul, contra o Equador.
Todo mundo sabe que a camisa branca começou a cair em desgraça com a derrota de 50, pro Uruguai. A rejeição sobrou também pra azul. Aqui, aconteceu o seguinte: na final de 50, Obdúlio Varela, já campeão, como que saiu de campo esfregando a Celeste na cara da multidão perplexa do Maracanã. A camisa azul, por isso, virou trauma e não teria chance de ser oficializada como a número um.
DE CRIS A DENÍLSON
Seja qual for a sorte do Brasil na Colômbia, a Copa América, pra mim, tanto faz como tanto fez. Nas circunstâncias em que se realiza, não passa de mais um caça-dólares da cartolagem. É dinheiro grosso que entra da venda de placas e de direitos de televisão. O resto é blá-blá-blá. Espero não estar dizendo nada que o leitor não esteja cansado de saber. Vejamos as eliminatórias: por que o formato de todos contra todos, se não pra aumentar o número de jogos, jogos que implicam mais tevê, mais placas nos estádios, direitos mais caros, mais venda de produtos (camisas, chaveiros, flâmulas, o diabo a quatro)?
Ligar a tevê pra ver o que na Colômbia? Pra ver Honduras? Ou então pra ver como é pobre, como é desinteressante o futebol de segunda mão do continente sulamericano? Dizer o que de um Uruguai desfigurado? De uma Argentina ausente, aliás, no que fez muito bem? Confesso que só tenho visto jogar o Brasil. Assim mesmo, por honra da firma. Ganho pra isso. Do contrário, nem a seleção do Felipão me pegava. Um coroa, acordado, à meia-noite, pra ficar vendo o Cris dar chutões obscenos em bolas singelas, inofensivas que cometem, coitadas, a imprudência de passar perto dele.
Ainda bem que, no jogo Brasil, 3 x Paraguai, 1, pude matar um pouco a saudade do que é nosso, vendo meia-dúzia de dribles e de fintas de Denílson. Imagino a alegria de Telê Santana, se é que ele tem tido estômago pra acompanhar essa Copa América. Foi Telê quem regou a grama juvenil do São Paulo F.C., de onde brotaria o esfuziante futebol de Denílson. Da noite pro dia, Denílson seria personagem de uma transferência milionária pra Espanha. Só na transação, o guri empalmou mais de 3 milhões de dólares. Ingressou no clube dos ricos. Certamente, mandou folhear as canelas em lâmina de ouro e pronto, o futebol dele perdeu as pernas. Sem falar que Denílson é mais uma vítima dos tecnocratas do futebol que têm horror ao drible, e que ficam à beira do campo a gritar a estúpida cantilena: Solta a bola! Solta a bola! Tomara que esteja renascendo o fulgurante talento desse admirável peladeiro.
Criatura ambivalente o nosso Felipão. O coração do homem palpita, ao mesmo tempo, pelos floreios de Denílson e pelos trovões do Cris Cruz Credo!
RÁPIDAS E RASTEIRAS
- A menos de 10 dias do campeonato brasileiro, ninguém sabe nem se haverá campeonato brasileiro. Onde está o calendário tão solenemente proclamado pela CBF, com o aval do ministro Melles, de Esportes, e de Pelé? Os dois entraram numa fria e não foi por falta de aviso.
- Dos três zagueiros que têm sido escalado na seleção de Felipão, o único realmente confiável é o mais moço deles: Juan. O rapaz é bom desde o juvenil e a parceria com o clássico Gamarra só lhe tem feito bem.
- Ainda Juan: ele está com um pé no Lazio, de Roma. Só tem um porém: o pai de Juan receia que o filho possa ser hostilizado por uma facção da torcida do Lazio que é, notoriamente, racista, extremista, facista.
- A doutora Gislaine Nunes, que advoga pra jogador de futebol, já ganhou dois presentes de atletas: um carro e um luxuoso relógio Cartier. O carro foi presente de seu cliente Márcio Santos.
- Gislaine é minha entrevistada, amanhã, no Programa Armando Nogueira, do Sportv.
- A vitória é embriagadora, mesmo. Ninguém falou da calamitosa jogada de Emerson que, com apenas oito minutos de jogo, me desfecha um carrinho por trás num paraguaio e dentro da área brasileira. O lance dá a medida do destempero, logo do homem que ostenta a braçadeira de capitão do Brasil. Em tempo: a jogada escandalosa foi objeto de duro comentário do meu querido Fernando Calazans, em sua coluna de O Globo.
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