Na Grande Área - Armando Nogueira
Sabe o que é que me entristece no futebol? É ver que a seleção perdeu o encanto que tinha. Virou coisa qualquer. Eu sei que não temos, aliás, nunca tivemos uma camisa mítica na seleção. Assim como a celeste olímpica dos uruguaios. Símbolo nacional. Pra eles, tão sagrada quanto a bandeira. Me contaram que ninguém vaia a seleção uruguaia no estádio Centenário. Por respeito à camisa.
A seleção brasileira nunca se impôs pelo fascínio da camisa. No princípio, a camisa era branca, com o escudo da CBD no peito. A reserva era azul. Depois, com a derrota de 50 e com o fiasco de 54, surgiria a amarelinha, cor de canário. Na época, o amarelo era símbolo de extravagância. Todo mundo tinha horror ao amarelo. Havia até um ditado que dizia: se não existisse o mau-gosto que seria do amarelo? Vinícius de Morais escreveu, nos anos 60, que a camisa amarela da seleção era tão feiinha, mas tão queridinha.
O povo brasileiro sempre teve como fonte de orgulho, na seleção, o craque. A magia do craque que vem de Leônidas, de Pelé, de Garrincha, de Rivelino, de Tostão. Dinastias que poderiam ter legado à própria camisa a aura que revestia a figura de nossos ídolos. Mas, sobreveio a era de Ricardo Teixeira e com ela, o aviltamento da seleção. A camisa, banalizada, converteu-se em mero objeto de mercancia. Quem dá mais! grita o leiloeiro Ricardo Teixeira, do alto de seu balcão, martelo na mão.
Hoje, sem camisa mítica pra venerar, sem craque pra glorificar, a seleção brasileira vai, passo a passo, descaindo na vala comum de coisa nenhuma. Já fomos os reis do futebol. Os vendilhões da seleção reduziram a camisa a trapos e farrapos de impensáveis derrotas. Triste mortalha. Perdemos a coroa. Perdemos até mesmo a majestade.
Eis o que me entristece, amigo. Daqui a pouco, a seleção, como diria o poeta, será apenas um retrato na parede. Mas, como dói!
UM TROFÉU, TRÊS GERAÇÕES





