Na Grande Área - Armando Nogueira
Evandro Carlos de Andrade. O jornalismo brasileiro perde um grande guerreiro. Poucos na minha geração professaram como ele tão grande apreço pela profissão. Para completar-se jornalista, Evandro tinha um espírito público do mais autêntico cidadão. Conheci-o mocinho, no Diário Carioca, em cuja redação aprendemos, juntos, boas lições de nosso ofício. Tínhamos, então, professores admiráveis como Pompeu de Souza, Prudente de Morais, neto, Carlos Castelo Branco, Otto Lara Resende, Jotaefegê.
Quando repórter, Evandro deu densidade e brilho à cobertura política em Brasília, escrevendo, primeiro, no Jornal do Brasil e, depois, no Estadão. Tinha um zelo extremado pelo estilo no texto jornalístico. Era um purista do idioma. Nos anos 70, sairia de Brasília para assumir a chefia de redação do jornal O Globo, no Rio, sua terra. Foi então que se firmou como líder de equipe. Era severo, implacável, mesmo, na cobrança dos deveres essenciais do jornalista. Nos seis anos em que dirigiu o jornalismo da Rede Globo, Evandro pregava, com fervor, os valores éticos que sempre deram realce à sua respeitável carreira.
Foi um dos jornalistas mais hostilizados pela comunidade de informações, na ditadura militar. O SNI chegou a fichá-lo como uma das pernas do tripé do Partido Comunista Internacional infiltrado no jornal O Globo. Em nossas confidências, entravam, sempre, as mancadas do SNI, em cujos arquivos figurávamos, ele, como perigoso agitador do PC, e eu, como membro atuante do Partido Comunista da Albânia... Bizarros arquivos em que o chargista Borjalo figurava como notório subversivo, também conhecido pela alcunha de Henfil... Ah, os coronéis do SNI e seus perplexos dossiês.
O telefone de Evandro vivia grampeado. Ele sabia e não dava a mínima. Ligava pros amigos e se deliciava, desancando os milicos. E não fazia aquilo por bravata. Tinha um temperamento tórrido. Era a natureza dele. Que o diga o Flamengo, por cujo time torcia em tormentosa mudez. Meu amigo sempre foi destemido. Assim na vida como às portas da morte. Doente, muito doente, sabendo que estava nas últimas, Evandro jamais perdeu o elã, embora já trouxesse no semblante aquela tristeza impessoal que mais provém da morte que da vida. Acamado, já sem viço no olhar, pegava o telefone e dava orientação à sua tropa no Jornalismo da Globo.
Estive com ele, várias vezes, ao longo da doença. Um dia, com a voz consumida pela moléstia, ele me dizia: Seja qual for o desfecho dessa doença, estou perfeitamente preparado pra morrer.
Perdi um velho amigo. Vai-se com ele um pedaço da minha identidade. É triste saber que já não posso mais invocar o Evandro como uma das mais fiéis testemunhas de minha vida.
A HORA DOS PONTAS
A preocupação maior do técnico Scolari, hoje, deve ser com o plano ofensivo. Se bem que o empate não seja mau negócio, é mais conveniente saber atacar pra melhor se defender. O forte dos uruguaios tem sido a defesa. Nas eliminatórias, todo mundo tem suado a camisa pra conseguir fazer gol neles. A pedreira começa pelo goleiro Carini. A seleção uruguaia só levou oito gols.
É o tipo do jogo que pede a escalação de pontas. Ponta veloz que chegue, realmente, à linha de fundo, pra fazer o cruzamento de bola em situação que pegue os zagueiros voltados pro próprio gol, madurinhos, inclusive, pra fazer gol contra.
Portanto, Felipão, Romário neles!JÔ EM 3 TEMPOS
Jô Soares é um dos meus papos preferidos. Gosto de ouví-lo, inclusive, quando fala de esportes, com sua visão eclética. Há dias, ele me telefonou de Nova York, onde estava espairecendo da pedreira intelectual que tem sido sua vida. Jô me mandou, então, um e-mail, formalizando as teorias que defendia no telefonema. Vamos lá:
Querido Manduca, três teorias se formaram nessa minha cabecinha maluca. A primeira diz respeito a nossa extraordinária seleção. Você já percebeu que técnicos excelentes nos clubes se dão mal na seleção? Acho que descobri o motivo. Nos clubes, quando chegam, eles têm que se virar com o elenco de jogadores já contratados. Na seleção, eles é que escolhem os melhores. Talvez esta onipotência e uma bisonha necessidade de afirmação façam com que suas convocações sempre nos surpreendam. Que tal Leomar? Com todo respeito pelo craque do Sport, não era mais prudente ter chamado um jogador com, digamos, mais experiência?
O ideal seria a cbf (pelo futebol que estão apresentando vai com minúscula mesmo) contratar dois técnicos: um só para convocar e outro só para treinar. Aliás, totalmente por acaso, foi o que aconteceu em 70...
Graças a Deus, nosso esporte continua bem representado porque o Guga continua jogando uma bolinha desse tamanhinho. É a de tênis.
A segunda teoria diz respeito à seleção de 70. Acho que os holandeses se inspiraram nela para criar o famoso carrossel de 74, com jogadores sem posição fixa. A semente estava ali: Piazza não era zagueiro, Jairzinho não era ponta, Tostão não era centroavante, o Rivelino nunca foi ponta-esquerda e o Pelé era qualquer coisa.
Quanto à terceira teoria não me lembro mais.
Beijos do amigo de sempre, Jô.
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