Na Grande Área - Armando Nogueira
PARIS - Antoine me recebeu como um bom anfitrião recebe os amigos: festivamente. Ele é o simpático e quase secular porteiro do hotel em que me hospedo, já lá se vão trinta anos. Um pouco do francês que arranho devo-o aos papos que tenho com Antoine. Solto a língua sem constrangimentos, indiferente às ofensas que cometo tanto à prosódia quanto à sintaxe francesa.
Nossas conversas vão de Jospin e Chirac ao futebol e ao tênis. No campo da política, estamos sempre de acordo. O papo é curto e grosso. Onde o bicho pega é no esporte, nossa paixão comum. Por um desses caprichos naturais da vida, estamos quase sempre desafinados, até mesmo na preferência pelo tema a discutir. Há vinte anos, a França já era uma das mais famosas escolas de tênis do mundo. O Brasil, por sua vez, dava as cartas no futebol. Éramos, então, indiscutivelmente, os melhores. Desde sempre, travamos Antoine e eu, uma infindável escaramuça, tipo gato-e-rato. Ele queria falar de tênis, dos mosqueteiros dos anos 20, da geração Yannick Noah dos anos 80; eu desconversava, querendo levar meu amigo a debater futebol.
Tempos idos e vividos. Hoje, quando entro ou saio do hotel, já lá está, no hall, de língua afiada o Antoine. E, veja só, amigo leitor: agora, os sinais estão trocados. Ele só quer falar de futebol, orgulhoso campeão do mundo, com sua seleção eleita a número 1 do planeta. Quem não dá corda ao assunto sou eu, morto de vergonha com os dois zero-a-zero: Canadá e Japão. Prefiro falar de tênis, hoje o esporte nacional do Brasil... Pergunto-lhe por Guga, ele me pergunta por Zidane. Assim, o papo não vai muito longe. Cada qual com o seu trunfo.
A quantas nos levam os sortilégios do esporte...
GUGA: VALEU A ESCRITA





