Na Grande Área - Armando Nogueira
A briga em família, às vésperas da final com o Vasco da Gama, não foi uma farsa pra iludir o adversário, cheguei até a admitir que as rusgas internas pudessem ser mera encenação. Na verdade, o clima rubro-negro estava mesmo pesado. Acontece que não há mal-estar que resista a um Maracanã em delírio. A multidão lavou a alma rubro-negra, já antes, da grande decisão. A alma e a roupa suja.
A estupenda vitória do Flamengo nasceu de um fenômeno irresistível: a transfiguração. Quando entrou em campo, a equipe já parecia a um passo da purificação. De cara, já se via o Flamengo mais decidido, a disputar cada bola com um fervor dos predestinados. Mal o árbitro apitava, o time já ia à luta, acuando o time do Vasco da Gama. Engraçado é que, minutos antes do jogo, o técnico Joel Santana dizia a todos os microfones: O Vasco vai atacar, sempre. E, mais enfático, ainda: A melhor defesa é o ataque. Pois sim! Dobrado ao ânimo rubro-negro, o time do Vasco da Gama recolheu-se ao próprio campo. Pensava, talvez, tirar partido da vantagem aritmética que lhe dava o direito até de perder por um gol de diferença.
É até possível que o técnico do Vasco da Gama pretendesse atacar de igual pra igual. Sucede que o time do Flamengo jogava melhor, tinha o controle pleno das ações ofensivas e defensivas. Psicologicamente, era senhor absoluto do jogo. E demonstrava uma obstinação coletiva que, de longe, fazia esquecer as desavenças que afloraram do recesso rubro-negro, durante a semana. Petkovic e Edilson, tidos como craques sempre em gozo de férias, os dois iam e vinham com um ardor só comparável ao espírito de luta de Beto, de Leandro Ávila, de Rocha e dos dois jovens laterais. Só comparável à coragem do goleiro Júlio César, êmulo legítimo do já consagrado Helton, do Vasco da Gama.
Raramente, tenho visto uma equipe tão empolgada e, naturalmente, tão empolgante quanto a do Flamengo, na partida de domingo. Que belo exemplo de amor e luta! E por estar ungida da santa paixão dos heróis, a equipe rubro-negra não deu um minuto de paz ao adversário. Atravessou, soberana, o árduo desafio do Maracanã. É verdade que o gol da vitória só viria no último alento do jogo. Mas, nem por isso, alguém dirá que o triunfal desfecho terá sido uma surpresa. Pelo menos, no que me diz respeito, o gol que sacramentou a glória rubro-negra apenas confirmaria uma expectativa lastreada pela lógica que regia o jogo. Tanto que, vendo a angústia velada de meu amigo, o poeta Thiago de Mello, rubro-negro incontido, eu lhe dizia, já na metade do segundo tempo: Só por um capricho do futebol, o Flamengo deixará de sair do Maracanã sem esse título. Profecia? Não. Realismo puro. E se o gol de Petkovic surgiu como se fosse uma graça celestial, o fato é que o golpe certeiro, preciso, apenas culminaria uma clara superioridade, fruto do desassombro, da transcendência que o Flamengo demonstrara o jogo inteiro e que são elementos primordiais em toda epopéia.
Daí, eu poder batizá-lo de gol sacramento.
ELEGÂNCIA E SENSATEZ





