Na Grande Área - Armando Nogueira
O técnico, seja em clube, seja na seleção, deve ser rigoroso em questão disciplinar. Mas, também, não precisa exagerar. Acho, por exemplo, que Leão exorbitou quando rifou até do banco um jogador da envergadura de Edilson. Edilson não chutou o pau da barraca, não xingou a mãe de ninguém, apenas, ficou de cara amarrada ao se ver preterido pelo novato Ewerthon, no treino da seleção, antes do jogo com o Peru. Se estava em jogo a base corinthiana, convenhamos, Edilson tinha mais credenciais que Ewerthon. Jogara com Vampeta, Marcelinho e Ricardinho ao longo de dois anos e meio. Ewerthon tinha apenas 15 minutos de convivência com os colegas de time.
Há dias, Edilson chegou atrasado ao treino do Flamengo. Zagallo relevou a falta. É possível que, mais tarde, num mano-a-mano, tenha dito ao craque que ele pisou na bola. Uma advertência. Nada, porém, que ameaçasse entornar o caldo, justamente quando o Flamengo vive as vésperas de uma decisão de título. Falou, na hora certa, a voz da experiência.
Leão deve ter amargado a própria intolerância, ao ver a seleção sem saída ofensiva e sem ter na suplência um craque veloz, agressivo e desconcertante como Edilson. Pagou pelo excesso de pulso.
Um dia, Nilton Santos apareceu pra treinar meia hora atrasado. Gentil Cardoso, então, treinador do Botafogo, apita, interrompe o treino e vai caminhando ao encontro do craque. Todo mundo no campo, parado, de olho na cena: o técnico põe a mão no ombro de Nilton Santos e, com um largo gesto de mão, recomenda: Vá, meu craque, o campo é todo seu... Era um treino de sexta-feira. Domingo, haveria um decisivo Botafogo-e-Flamengo. Na segunda-feira seguinte, Gentil teve uma conversa devidamente enérgica com Nilton Santos. Falou, na hora certa, a voz da experiência.
A pinimba de Leão com Edilson me lembrou aquela história do empregado que mandou pro inferno um gerente que o ameaçava de demissão por uma falha acidental, uma besteirinha qualquer. Irritado com a reação raivosa do subordinado, o gerente avisou, dedo na cara, que ia pedir ao patrão pra mandá-lo embora da empresa.
Então, aproveita disse o funcionário, mais que abusado e então, aproveita e diz lá ao patrão que eu quero que ele também vá pro inferno. Que se dane os dois!
Em cinco minutos o gerente, enfurecido, já estava contando tudo ao patrão.
Me traz aqui a folha de serviço desse cara ordenou o patrão, decidido a prestigiar o seu preposto. A secretária trouxe a ficha do homem. Só pontos a favor. Era, disparado, o melhor vendedor da firma. Em dois anos, já tinha batido todos os recordes de venda.
O patrão, então, volta-se pro gerente e diz:
Olha aqui, minha decisão está tomada: eu vou pro inferno, agora mesmo; se você não quiser ir, o problema é seu...
ESTRANHA JOGADA





