Na Grande Área - Armando Nogueira
Tive um sonho. Passei a noite toda entregue a uma fantasia. No princípio, parecia um pesadelo. Apareceu um anjo a voar pelo céu de um campo de futebol gritando: Ai dos que conspurcam este lugar! Serão todos varridos por um dilúvio! Durante 40 dias, desabarão sobre os estádios colossais trombas dágua. Logo, percebi que o que eu vivia, então, não era um aviso do fim do mundo e sim um aceno de redenção.
A multidão que estava no estádio, naquele momento, percebeu que a cólera vinha dos altos do universo, onde reina Iahweh, o deus do Gênesis que já não tolerava tanta patifaria no futebol. E, então, o povão, feito torcida, pôs-se a clamar contra os mercadores do futebol; e a pedir, aos gritos, que o castigo não tardasse, e que os céus fossem implacáveis com a corrupção; e que a tormenta não poupasse um só cartola corrupto; e que as federações suspeitas de bandalheira fossem invadidas por moréias ferozes e descomunais; e que a avalanche arrastasse para os abismos todos os empresários de futebol; e - que não restasse na face da terra um só técnico retranqueiro; e que as águas desembestadas lavassem dos campos todos os cabeças-de-área, também conhecidos como cabeças-de-bagre; e que arrastassem também os ímpios que vivem a dar carrinhos em seus semelhantes; e que, em nome da sinceridade, não fosse mais permitido beijo de jogador no escudo das camisas.
As imprecações, uma a uma, todas elas iam sendo acolhidas pelos anjos, de cujas trombetas ressoavam vozes de escarmento. E como no Apocalipse, o fogo misturou-se à água do dilúvio para abrasar os vendilhões do futebol com calores bíblicos. E árbitros sacripantas foram incinerados de apitos na boca e bandeirinhas nas mãos. E escureceu, para sempre, o dia daqueles políticos que dão asas a cartolas velhacos. E os juízes dos tribunais esportivos, cortes tidas pelos deuses como meros valhacoutos, foram impiedosamente atacados por bandos de morcegos enormes com caudas de escorpião. E as torcidas organizadas de todos os clubes foram devoradas por monstros que traziam cabelos de mulher, dentes de leão e patas de cavalo.
Não acordei senão depois de ver os gramados dos campos, de novo, verdejantes. E não antes também de ouvir a voz de sete anjos, em cortejo, a anunciar o fim das calamidades e o alvorecer de um novo tempo. E se fecharam as fontes do abismo e as comportas do céu. E das mãos de um anjo emergiu uma pombinha branca que trazia no bico uma flor também branca com perfume de dama-da-noite. E, enfim, liberto de tanto flagelo, o futebol brasileiro renasceu das trevas porque foram banidos os flibusteiros. E não se deram mais carrinhos, nem se falsificaram passaportes. E o jogador deixou de ser vendido como reles objeto nas mãos profanas dos mercenários. E cada novo jogo de futebol passou a ser uma festa. E as arquibancadas, de novo, se encheram de bandeiras irmanadas. E em vez de violência, boa convivência. E os craques voltaram a fazer fila pedindo para jogar na seleção. E a camisa da seleção deixou de ser mercancia para tornar a ser, de novo, símbolo nacional. E os clubes passaram a pagar em dia porque o dinheiro era limpo e límpidas as fontes de onde provinha.
E quando acordei, ainda ouvia a voz da multidão, ecoando pelos estádios como se fosse a voz de muitas águas e de muitos trovões a cantar: Aleluia! Aleluia! Salvação!
Foi apenas um sonho, sei bem; mas pode ter sido também uma premonição. Agradeci aos céus pela noite de esperança, com esta breve oração que tanto me agrada: Dai-nos, hoje, senhor, a utopia de cada dia.
BOLA DENTRO, BOLA FORA





