É de amargar a gente ouvir de uns e outros a conversa fiada de que o futebol de hoje é mais trabalhoso, é mais difícil porque o jogador não tem tempo de pensar. No que recebe a bola, alguém já resfolega no seu cangote. Noutros tempos, argumentam, o jogador dominava a bola, olhava em volta, raciocinava, etc, etc. Não sabem de nada. Até parece que, nos velhos tempos, o futebol era um ameno passatempo tipo jogo de damas. Parece até que Garrincha planejava seus dribles, em plena corrida. Certamente, Maradona arquitetou, cerebralmente, cada drible dos sete que deu nos sete ingleses, na final de 86, no México. Passa pela cabeça de alguém que Pelé preconcebia um corta-luz ou uma matada no peito, antes de fazer o gol consagrador?
Gente, craque não pensa a jogada. Craque lampeja. Craque é centelha, é inteligência medular, e neuromuscular. Estou me lembrando, neste momento, de um cara que jogava pelada na minha turma. Bom sujeito, mas uma lástima com a bola nos pés. Diante do adversário, o coitado nunca sabia o que fazer. Então, invariavelmente parava pra pensar. Um dia, um maledicente gritou, lá da piscina: ‘‘O Nelson não dribla, ele muda de idéia...’’ O drible não será jamais um exercício mental; o drible, como a finta, o passe de primeira, o sem-pulo, tudo isso é puro instinto, é reflexo.
Vá perguntar ao Tostão se ele e o Dirceu Lopes faziam suas vertiginosas tabelinhas medindo os passos com fita métrica. A mágica vinha no sopro da intuição, tal como o músico que não sabe ler partitura e, no entanto, surpreende a nota certa, no tempo exato (ou é a nota que surpreende o músico?). Paula e Hortência sequer se entreolhavam quando tramavam os movimentos de um ataque repentino à cesta rival. É que estamos falando de uma virtude que escasseia no esporte coletivo: talento!
Por esses dias, o professor Kiltschik, da Universidade de Kiev, anda fazendo palestras pela Europa, com uma tese que ele denominou ‘‘A importância do talento no Esporte’’. O doutor pergunta, mas não ousa responder: ‘‘O talento é um dom de Deus ou é propriedade que se adquire na prática?’’
Com todo respeito ao professor, inclino-me pela teoria de que o talento é uma graça que o espírito concede ao homem. Quando esse talento se exprime em dimensão superior, como em Pelé, em Garrincha, em Maradona, aí, então, entra em campo a genialidade. Ambas, porém, nos respectivos graus, se encaixam no conceito de faculdade. A faculdade, segundo Borges, já nasce com a criatura. Já a capacidade, essa vem a ser o domínio de um ofício graças ao aprendizado exercido com disciplina e obstinação.
Em poucas palavras: o craque não precisa de tempo pra criar um espaço, pra acionar um companheiro na vertigem de um ataque. O craque tem na pele o sentimento pleno do campo, que é o próprio mundo.
O resto é perda de tempo...

UM PRODÍGIO

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