Há quem ache que, na coluna de domingo passado, peguei pesado em cima da seleção. Afinal, pondera-se, uma derrota não chega a ser o fim do mundo. Aliás, o próprio treinador Leão, falando de lá da Europa, onde faz observações técnicas, o próprio Leão, repito, diz que a coisa não está tão preta como se pinta por aqui.
Será que estou indo longe demais? Creio que não, a julgar pela avalanche de e-mails que estou recebendo, todo mundo concordando comigo. Mas vamos lá. Se a derrota de Quito fosse um fato isolado e não fizesse parte de uma sequência de pífias exibições, concedo que eu estaria sendo, no mínimo, precipitado. Afinal de contas, no futebol tal como no jogo do amor, a gente ganha e perde. Ganhar e perder é uma das mais saudáveis tônicas da vida. Acontece que, no futebol, não basta vencer. É fundamental que se vença, convencendo. Quer dizer, jogando bem e bonito. E como foi que a seleção brasileira construiu sua imagem mundo a fora, tempos a fora? Quem despertou nas multidões a grata sensação de que o futebol é uma forma de arte tão rica de expressões quanto a dança: corpo, espírito e coração inventando gestos em perfeita harmonia? E, hoje, por onde anda esse futebol-arte que já não se vê mais, nem nos clubes, nem na seleção?
Dirão os pragmáticos de plantão que os tempos são outros. O jogo mudou de cara. Admito, mas me permito perguntar: não será por que nos deixamos levar pela onda européia do estilo bate-estaca e dos cabeças-de-área que só degradam o futebol?; não será por obra dos técnicos cabeça-de-vento que nada criam e só copiam?; não será culpa dos cartolas velhacos que jamais se preocuparam em preservar a escola brasileira de futebol e que só pensam em dinheiro – e dinheiro maldito?
Infeliz futebol brasileiro: a tantos enriquece; só ele empobrece.

BOLA FORA, BOLA DENTRO

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