A grande verdade amigos, é que a evolução (?) tática acabou com duas preciosidades de um time de futebol: o ponta e o meia, este outrora conhecido como meia-de-ligação. Nos bons tempos, a seleção tinha em Zizinho e Jair da Rosa Pinto o mais ilustre ‘par de meias’ do Brasil. Era com esses dois trunfos – meia e ponta – que se ganhava jogo, dando show de bola. O meia, estava para o time como o maestro para a orquestra. Regia as ações ofensivas da equipe, criando espaços, alternando cadências, abrindo caminhos a bolas repassadas de luz. Ah, que saudades de Zizinho, de Didi, de Gerson, de Ademir da Guia! O outro, o ponta, exibia, nos pés ligeiros, toda a magia do drible cortante, da corrida vertiginosa até chegar à linha de fundo, de onde provinha o passe solidário pro artilheiro de plantão. Quem não se lembra do Garrincha, do Julinho, do Canhoteiro, do Edu? Arrebatamentos que não voltam nunca mais!
Estou pegando carona em recente artigo de Tostão. Clarividente como sempre, o brilhante cronista põe o dedo na ferida, e mostra o mal que têm feito ao futebol os técnicos que se crêem Napoleões. Napoleões-de-chácara, isso sim. Podaram o talento do meia, reduzindo-o ao papel de semi-atacante, com um mínimo de espaço pra atuar. O craque, que antes, erguia a cabeça e descortinava a linha do horizonte, acabou restrito à visão estreita do beco, espremido entre o grande círculo e a meia-lua da área rival. Atrás dele, um comboio de cabeças-de-área, entulhando a faixa central que sempre foi o espaço mais nobre de um campo de futebol. Eu via o meia e o volante clássico a ditar o jogo do alto de um púlpito. Eram os maestros. Que saudades que eu tenho de Danilo, de Rui, de Nestor Rossi, de Beckenbauer!
Tostão tem razão: hoje, o meia tem papel vago: é atacante e não é; é defensor e não é. Na correria em que se transformou o jogo, o meia opera no limbo. Daí, a impressão de intermitência que alguns nos passam. É o caso de Alex que, por sinal, anda meio por baixo. Dizem que, às vezes, Alex dorme em pleno jogo. Exagero. Mas vamos admitir que durma. Pois eu prefiro o craque que, volta e meia dá seus cochilos, ao medíocre dinâmico, vigilante. O time não se livra dele um minuto sequer. A questão me faz lembrar uma perfídia de Nelson Rodrigues, entrando de sola em Zé Maria Scassa, na Resenha Facit, saudoso programa da pré-história da televisão carioca. Pelas tantas, Scassa surpreende um cochilo de Nelson, no meio do programa (ao vivo, tarde da noite). Scassa não perdoa:
- Agora, eu já sei porque o Nelson só diz bobagem neste programa. Ele fica dormindo o tempo todo!
- Olha, Scassa - responde Nelson, com voz sonolenta - eu vou te dizer uma coisa patética: eu sou mais inteligente que você até dormindo...

SAUDADES DO PONTA

mockup