Pelé faz as pazes com Ricardo Teixeira. Quem diria! Passaram anos se descompondo. Pelé vivia soltando os cachorros em cima do ex-desafeto. Teixeira até que não jogava tão pesado. Também, não era fácil. Afinal, nunca se ouviu falar de vacilos morais de Pelé como empresário de esporte. Absoluto, Pelé jamais refrescou. O mínimo que dizia era que a CBF não passava de um antro de corruptos.
De repente, não mais que de repente, sobrevem a bomba: Pelé e Teixeira trocam de bem, com a jura solene, feita pela dupla, de arrumar a casa-da-mãe-joana. A causa é tão sonhada e tão urgente que nem é o caso de procurar saber, a essa altura da partida, se essa tabelinha vem piorar a imagem de Pelé ou melhorar a de Ricardo Teixeira, ou as duas coisas, ao mesmo tempo. Dirão os porta-vozes da cruzada: é um interesse mais alto que se alevanta.
A vida ensina o homem a compreender, embora, nem sempre, deva concordar com ela. Futebol também é política e fazer política, amigos, quase sempre, é fazer de contas que não foi bem assim, e que, portanto, a ordem é passar a borracha e seguir em frente que atrás vem gente. Uma coisa, porém, me estranha na súbita aliança: é o tom de lua-de-mel na reunião dos dois, em Brasília. Foi um encontro cheio de desvelos como só se vê entre dois namorados ao sol de um novo amor. Pelé dirá que, em nome da redenção do futebol, tudo vale a pena. Mas, convenhamos, ele não precisava exagerar nas mesuras. Pelé sorriu, afagou, foi afagado. Aquilo não foi uma reunião, foi um colóquio. Só faltou o ‘‘Besame mucho...’’
Vocês conhecem aquela historinha do casal que ia caminhando por uma estrada? Um sol de rachar, os dois solancando, muitas léguas cansadas pela frente. Os dois resolvem dar um tempo. Sentam-se à sombra de uma afetuosa gameleira. Aparece, de surpresa, um malfeitor. Revólver na mão, rende o marido e o enrosca, da cabeça aos pés, no tronco da árvore. É um tarado. Agarrada, a mulherzinha esperneia, esbraveja, mas não evita o pior. Acaba, coitada, sexualmente violentada. A cena não dura mais de cinco minutos. O monstro, saciado, corre e se embrenha no mesmo matagal de onde saira.
A mulher, em prantos, logo ajuda o marido a se livrar das amarras. Sem dizer uma palavra. Sequer, olha pra mulher. Parece aborrecido.
- Tá zangado comigo? - pergunta a mulher, ainda em soluços. Ele, calado. Ela insiste:
- Que é que eu podia fazer? Eu gritei, você viu, arranhei ele todo, fiz o que pude...
O marido, inconformado, encerra o papo, com uma pergunta atroz:
- ... Precisava gemer?

AS MOÇAS DE LISBOA

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