Na Grande Área - Armando Nogueira
Gente, é ou não é o caso de se concluir que o mal da seleção é que ela perdeu mesmo o encanto? Olho grande em mina de ouro acaba dando nisso. Acontece a pessoas, acontece a coisas. De repente, bate uma fraqueza na criatura, ela vai perdendo o viço, fica abatida. É o tal do quebranto.
Há quanto tempo não se vê a seleção jogar o autêntico futebol brasileiro? Com aquele estilo vistoso, destemido, altivo. Com aquele futebol de grão-senhor. Hoje, quem diria! A seleção virou carne de vaca louca. Veja-se o que sucedeu esta semana: a tão celebrada equipe nacional vai jogar nos Estados Unidos e no México, dois lugares sem tradição no futebol. Leva o que temos de melhor. Na expedição ilustre, só bam-bam-bam. Em linguagem sonante, eu diria que o PIB da seleção, pelos nomes que a compõem, é mais alto que o do ricaço sultanato de Brunei, com sua deslavada fortuna de petróleo.
O primeiro jogo, contra os Estados Unidos, no Brasil, ninguém viu. A tevê ignorou. Sorte nossa. Os próprios americanos dizem que foi um porre. E é bom esclarecer que a bola não era aquela troncha do futebol americano, era a nossa afabilíssima esfera. Em seguida, joga no México. Logo onde? No mesmo cenário em que o Brasil fez partidas memoráveis no mundial de 70. Empata, resfolegando, no derradeiro minuto. Uma afronta à história.
Dormi na poltrona, com 20 minutos de jogo. No dia seguinte, pensava comigo mesmo: será que estou começando a sentir o peso da idade? Felizmente, encontro, num almoço, em São Paulo, o nosso sempiterno Rivelino. O homem continua em grande forma e em dia com o futebol. Pois não é que ele também não suportou a chatice da seleção? Desligou a tevê com 20 minutos e foi dormir o sono dos justos. O poeta Thiago de Mello me liga de Barreirinha pra dizer que não viu e não gostou.
Alguém dirá que o nosso não é um bom exemplo. Rivelino e eu já somos um tanto rodados na longa estrada do futebol. Um certo enfado é mais que natural. Mas, e o caso que vos conto, agora? O Pessanha, meu velho amigo, levou um convidado pra assistir ao jogo com ele, em casa. Chegaram a brindar pela seleção, tomando um vinho do Porto, um Tawny digestivo de 30 anos. No intervalo, a visita levanta-se com ares de quem vai se mandar. O anfitrião, sabendo que o convidado não era lá muito ligado em futebol, deu-lhe um toque, delicadamente:
- Calma, rapaz, que o jogo ainda não acabou, - diz Pessanha: - Tem o segundo tempo. E o outro, com firmeza:
- Eu sei, eu sei, e é por isso mesmo que estou indo embora...
CIDADE DE TRAIÇÕES





