Na Grande Área - Armando Nogueira
Chego das férias e encontro a aviação esportiva brasileira posta em xeque. O trágico acidente aéreo do cantor Herbert Vianna em que morreu Lucy, sua mulher, e pelo qual Herbert está internado, em estado grave - o trágico acidente, repito, leva, naturalmente, muita gente a condenar o vôo de ultraleve. Resultado: o aviãozinho sai da história como se fosse a própria maldição.
Será que ninguém sabe que moto mata mais que ultraleve?; que bicicleta também mata mais? Ninguém vive falando mal, assim, da asa delta, nem do automobilismo, todos eles também esportes de risco. Em favor dessas modalidades, é bom saber que quem as pratica não busca a morte, como alguns supõem. Na realidade, buscamos a própria vida no que têm de vital a ação, o movimento, a emoção, a vertigem.
Posso dar um testemunho de coração: vôo há quase 20 anos e estou certo de que não comete nenhum desatino quem pilota um ultraleve. O aviãozinho é de todo confiável. A estatística atesta que a segurança é amplamente satisfatória.
Voar implica risco, sem dúvida, mas é um risco que vem da condição humana e não da máquina. A máquina é a inocente útil da questão. Se o homem vai além de seus limites, o que é que o aviãozinho pode fazer para salvá-lo de uma situação adversa? E olhe, amigo, posso garantir que o ultraleve é um dos mais complacentes entre todos os engenhos que voam. Ele costuma perdoar - e como perdoa! - as afoitezas do homem. O registro de acidentes diz que em 80 por cento das quedas de aviões primários, no Brasil e no mundo, o causador é o piloto. Você ouvirá de qualquer ás da aviação, como estou cansado de ouvir, que avião não mata o homem, o homem é que se mata de avião.
Pilotos de ultraleve, pilotos de asa delta, pilotos de carros de corrida! O que nos compete, a todos nós, é tirar de nossas ardentes aventuras o máximo prazer com o máximo de segurança. Direi, mesmo, com o máximo de prudência, santa virtude que vem a ser a melhor parceira da coragem. Engana-se redondamente quem pensa que a coragem prescinde da cautela. E se a cautela nasce com o sentimento do medo, o que será a coragem senão a capacidade de sobrepujar o medo, bendito medo sem o qual o homem está mais pra suicida que pra herói?
Está sobejamente provado que um acidente de avião é quase sempre fruto de uma sucessão de incidentes, implacável cadeia de causas à qual não escapa nem mesmo uma dose de fatalismo, se assim o queiram os deterministas. No caso específico e brutal de Mangaratiba, ninguém sabe, ao certo, o que sucedeu. Por isso, ainda não é hora de julgamentos. O DAC está investigando as causas do desastre do Fascination de Herbert Vianna. Aguardemos, sem precipitações.
Qualquer que seja a conclusão dos técnicos, porém, uma pergunta nos angustia a todos: por que será que as coisas ruins cismam de acontecer justamente com pessoas tão boas? A indagação, tema de um livro escrito por um rabino americano, inspirou uma brilhante crônica de Arthur Dapieve, que li no Globo. Dapieve fala, inconformado, sobre a tragédia que vitimou o casal Herbert Vianna, justamente, duas pessoas das mais adoráveis deste mundo e que não mereciam sofrer semelhante martírio. Lucy, a doce Lucy, conheci-a de perto: era criatura de uma convivência cordial e efusiva. Quando sorria, fechava ligeiramente os dois olhos: pura delicadeza dalma. Que Deus a tenha em santa paz. Herbert, por sua vez, é um homem do mais fino espírito: ele canta, ele toca, ele voa, ele conversa, tangendo as cordas da vida na clave singular da poesia.
RÁPIDAS E RASTEIRAS





