Na Grande Área - Armando Nogueira
É tão antigo quanto dizer que as notas baixas são consequências de inexplicável perseguição da professora; que as mulheres não dirigem o olhar por causa da altura; que o patrão não concede aumento por não gostar do seu jeito sempre alegre e que o casamento vai mal pela diferença de expectativas com a companheira. Os argumentos apresentados por Júnior Baiano têm este sabor. Não estou aqui condenando o zagueiro que técnicos qualificados como Telê Santana, Zagallo e Luís Felipe Scolari fizeram questão de ter em suas equipes. Mas a explicação do zagueiro para a prova e contraprova (!) do exame antidoping não convence um colegiado formado por garotos com a idade de jardim de infância.
Talvez este seja o momento mais difícil na carreira de um atleta, porque o drama não fica restrito ao que se passa nas quatro linhas de um campo de futebol. Leitura atenta das declarações do zagueiro que foi campeão da Copa João Havelange pelo Vasco mostra que ele não se defende do resultado apresentado pelo exame. Apenas o contesta, afirmando que alguém pode ter colocado cocaína na sua comida ou bebida. Quem não quer enxergar o que significa o resultado de um exame deste, compra a versão de Júnior Baiano e invoca argumentos do tipo ele é um atleta, e, portanto, jamais faria tal tipo de coisa.
Colocar os atletas na condição de super-heróis tem cheiro de gol contra. O atleta é ser absolutamente normal, com erros e acertos como um cidadão comum, que paga o IPTU, pára e avança sinal, divide prato em restaurante e pede a saideira no botequim da esquina. O momento é delicado para a carreira de um jogador que nem sempre primou pela delicadeza em relação aos adversários e tampouco com pessoas envolvidas no esporte. Foi capaz de acusar o juiz Oscar Roberto de Godoy de apitar embriagado nada foi comprovado posteriormente , de jurar que não cometeu pênalti contra a Dinamarca na Copa de 98 uma câmera atrás do gol demoliu sua versão e nem vou falar que fez juras de amor eterna ao Flamengo hoje está no Vasco , porque a paixão do jogador de futebol é proporcional ao que recebe, quando recebe, no fim do mês. Me impressiona e olha que hoje em dia é cada vez mais raro isso acontecer o fato de um atleta ingerir cocaína - e não me refiro específicamente ao caso que envolve Júnior Baiano.
Como não sou especialista no assunto, procurei um o médico Gilberto Ururahy , que foi bem objetivo: É uma loucura para a pessoa comum e mais ainda para o atleta, me diz. De uns tempos para cá, a cocaína passou a ser tão comum, em qualquer meio social, como ainda é a cerveja. Negar a sua presença na praia, em casa, no cinema, banheiro ou mesa de bar que se frequente é fechar os olhos nas cenas de terror do filme de monstros ou tapar os ouvidos no solo de guitarra de um conjunto metaleiro. Não sou de dar conselhos, porque estes anulam a capacidade de pensar e decidir do aconselhado, mas Júnior Baiano deveria pensar sobre tudo o que está acontecendo, medir, refletir. Não creio que seja um viciado esse não consegue cumprir uma rotina ou nem sequer usuário fronteiriço para o vício , mas este momento é um bom exemplo para ver que o mundo não é uma área, onde um chutão manda a bola para longe.
QUEDA LIVRE





