Vai-se o ano e, com ele, um tanto de mim, testemunha de atos e fatos memoráveis do calendário esportivo mundial em 2000. O mais tocante, sem dúvida, foram os Jogos Olímpicos de Sidney. Guardo de então as mais saudáveis recordações. E como véspera de reveillon é hora de contemplação (tomada a palavra contemplação como um termo sinônimo de preguiça), permito-me reproduzir um trecho da crônica que escrevi, no encerramento dos Jogos de Sidney.
‘‘Esta crônica é pela cidade de Sidney que me cobriu de atenções, em cada dia que aqui passei pelo halo soberano que reveste a pele profunda de Marion Jones; pelos nadadores que reinventaram o espelho d’água na piscina por seus heróis canonizada; pela descoberta dos mares do sul, que há séculos seduzem o homem de todos os continentes; pelo comovente adeus de Michael Johnson que teve ouvidos pra ouvir o que lhe dizia o próprio corpo, fatigado de cintilantes e árduas passadas; pela prosperidade da Austrália, que já é o país do futuro, sem que jamais tenha dito que seria; pelo canto chorado do Cocaburra, que me despertava, diariamente, antecipando a aurora de mais um dia, na fantasia do paraíso olímpico; pelo fervor ecológico do povo australiano para quem o culto à natureza é um sacerdócio; pelo capitoso vinho da terra que tanto bem faz às mulheres, sobretudo, quando tomado pelos homens; pela saga aborígine de Cathy Freeman, campeã de duas bandeiras e que acabaria, ela própria, convertida em bandeira: heroína do esporte-símbolo de libertação; pelo pranto abundante de lágrimas no rosto da derrota; pelo sorriso, igualmente abundante de lágrimas, no rosto da vitória; pelo atleta que perdeu e cuja agonia o aproxima de Deus, em odor de humildade; pelo espírito olímpico que vi reluzir nos músculos imperiais do ginasta russo; pela alma unânime que preside a tantos corpos na vertigem dos jogos coletivos; pela solidão das raias que conduz o homem ao encontro da utopia olímpica. Enfim, pela sina do esporte, eloquente imitação da vida que, agora, nos levará a Atenas, onde nasceu a grande epopéia da criatura olímpica.

ARRANCADA VASCAÍNA

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