Pra variar, a Fifa acabou arranjando um grande fuzuê, com a eleição do craque do século feita pela internet. Apurou-se que quem votou, maciçamente, foi a garotada de 15 a 25 anos. Quer dizer: um eleitorado que tem, realmente vividos no século XX, quando muito, parcos 15 minutos. São meninos que ainda não viram nada de coisa alguma. Sem contar que o grosso da votação saiu da Argentina, terra de Maradona.
Mas, enfim, vamos baixar a bola, antes que Brasil e Argentina entrem em guerra armada. Futebol, todos sabem, é paixão e não adianta discutir. Ou melhor, adianta, sim. O gostoso do futebol é mesmo o bate-boca: Friendereich ou Leônidas da Silva? Pelé ou Garrincha? Maradona ou Di Stéfano?
Dos seis que acabo de citar, vi – e como vi! – o deslumbrante futebol de quatro deles: Pelé, Garrincha, Di Stéfano e Maradona. Os dois primeiros, mais que os olhos, me encheram a alma e o coração. A tal ponto que nem admito comparações. Os dois são simplesmente incomparáveis. Tenho o privilégio de havê-los visto jogar a carreira toda, desde o mundial da Suécia, em 58. E, se num esforço de objetividade, votaria em Pelé, como o melhor entre todos, é só porque nele a centelha do gol sempre foi mais intensa que em Garrincha. O duro é que, de repente, o coração me pega pelo pé e me vejo súdito e nostálgico dos dribles de Garrincha. Meio desconsolado, fico a me perguntar por que terá sido Deus tão pródigo, dando-nos dois gênios, quando poderia perfeitamente ter nos dado um só com todas as virtudes dos dois? Já pensou, amigo leitor, o Pelé com os dribles fantásticos de Garrincha? Ou o Garrincha, com a predestinação do gol que tinha Pelé?
É compreensível que as preferências se multipliquem, pelos tempos a fora, provocando férvidas discussões: Friendereich ou Leônidas? Di Stéfano ou Maradona? Pelé ou Garrincha? Zizinho ou Cruyff?
Certa noite, vi meu amigo Braguinha perder a esportiva quando um amigo dele, um banqueiro português, brindou com um Porto de 20 anos, o futebol de Eusébio, ali mesmo por ele proclamado como o maior jogador de futebol do mundo, em todos os tempos. Braguinha subiu nas tamancas.
Não conheço, na vida, delírio maior que o futebol. O verdadeiro torcedor não tem um pingo de bom senso e até tem raiva de quem tenha. Há muitos anos, me ocorreu que o torcedor torce e destorce a verdade, até morrer, doa a quem doer. Até hoje, ninguém me contestou. Torcer é surtar. Se o verbo não existe no meu Aurélio, azar do velho Aurélio. Em surto, é a alma que dita aos olhos do torcedor, não o que ele está vendo e sim o que ele quer, realmente, ver. O olhar de quem ama só vê o que o coração quer...
Um dos ossos mais duros de roer, nesse vale de lágrimas, é o do comentarista de futebol. Pobre coitado. Dele se exige isenção, equidistância, objetividade. Como se não fóssemos também de carne e osso. Depois de tantos anos de opressão profissional, hoje, eu me pergunto: em nome de que idéia decidi eu, um dia, virar jornalista esportivo? Por que resolvi eu submeter meu vibrante coração a tão patético desafio? Ser crítico de futebol é viver crucificado entre os rigores da ética e os ardores do coração.
Hoje, sinto perdidas saudades das lágrimas alvinegras que não chorei, quando via Garrincha acabar com o jogo nas tardes joviais do Maracanã; e eu, ali, sentado na tribuna de imprensa, impassível como um virtuoso de Plutarco.
O torcedor argentino tem mais é que votar em Maradona, um extraordinário jogador. Duvido que os alemães não votariam em Beckenbauer. Ou os holandeses, no colossal Johan Cruyff. Ou meu saudoso pai, em Friendereich, o herói do sul-americano de 19. Quando menino, em Rio Branco, se alguém me acenasse com o Diamante Negro, eu retrucaria com o Chico Banha...
Felizmente, Sepp Blatter arrependeu-se da idéia de ouvir a opinião apaixonada do torcedor e foi consultar um júri de figuras legendárias do futebol. Não deu outra: Beckenbauer, Bobby Charlton, Eusébio, Facchetti, Platini, Hugo Sanchez, Hagi e o argentino Perfumo, todos eles, sem hesitação, votaram em Pelé.
No futebol, de vez em quando, a razão derrota o coração. A Maradona que, repito, foi um craque magistral, só resta, agora, tocar um tango argentino...

O problema é o piloto

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