Há mais de dez anos que André Agassi é a melhor devolução de serviço do tênis mundial. Se lhe chega um tiro de canhão, a bolinha volta com o poder destruidor de um míssil. Guga sabia disso, perfeitamente. Que fez ele? Esmerou-se, como nunca, na execução do primeiro serviço, a ponto de ter feito 19 aces, além de ter ousado, tanto no primeiro como no segundo serviço; ambos sempre repassados de prodigiosos efeitos e com um impressionante senso de direção da bola.
Há mais de dez anos que André Agassi fulmina os rivais com bolas cruzadas manejadas com precisão, deslocando progressivamente o rival pra fora dos limites da quadra. Guga sabia disso, perfeitamente. Que fez ele, então? A cada cruzada de Agassi, Guga reagia, na mesma moeda; às vezes, até impondo à bola ângulos muito mais agudos. Tais armas, sempre temíveis, de Agassi, Guga neutralizava, aliando a uma técnica irretocável o destemor dos grandes guerreiros.
Há mais de dez anos que André Agassi é tido como praticamente invulnerável na troca de bolas, do fundo da quadra. Guga sabia disso, tanto que, num admirável exemplo de maturidade e de rigor técnico, sustentava o diálogo, sem perder jamais a paciência. E como alguém, afinal, teria que culminar o infindável duelo de fogosas cruzadas, era Guga e não o monstro-sagrado quem tomava a iniciativa: entrava em cena, então, a súbita paralela, que lançava a bola, triscando a linha lateral, profunda, incisiva, desabusada. Onde já se viu alguém ousar mudar a direção da bola, uma bola que vinha, envenenada pela raquete de um temível campeão?
Não conheço, no tênis, golpe mais bonito, mais empolgante que a paralela de esquerda, principalmente, quando executada por quem faz o revés usando uma das mãos. A amplitude do movimento, braço a fora, cria no espaço um gesto de beleza escultural.
No embate de gigantes do Masters de Lisboa, Guga pontificou, absoluto, em todos os golpes acima comentados. Formados ambos no tênis de saibro, Guga e Agassi só se nivelaram na astúcia da ‘‘deixadinha’’. Eis aí uma criação maravilhosa que enriqueceu, sensivelmente, a partida. Quando se esperava mais um ‘‘drive’’ contundente, ora Guga, ora Agassi, um dos dois ‘‘escondia’’ a raquete, transformando essa arma sempre tão agressiva em dissimulada mão de seda; e a bola, levemente tocada, gotejava, quase morta, na quadra rival como uma gota de orvalho.
Há mais de dez anos que André Agassi vence torneios, inclusive do Grand Slam, soltando torpedos do fundo da quadra, sem ousar, jamais, subir à rede. Guga sabia disso. Agassi também conhecia a inapetência de Guga pelos golpes de rede. Acontece que Guga estava ali pra desafiar todos os caprichos do jogo. Foi aí que se acentuou mais ainda a superioridade de Guga. Ele surpreendeu todo mundo com a desenvoltura nos pontos decisivos com impecáveis voleios.
E se eu disser que Guga não perdeu, um só instante, o pulso da partida final; e se eu disser a vocês que a raquete de Guga me lembra uma cartola de onde ele recolhe os golpes mais vistosos do tênis: das cruzadas às paralelas, dos voleios às deixadinhas que gotejam na quadra; e se eu disser a vocês que Guga não é apenas o tenista número um do mundo, mas é também o campeão mundial do ano 2000?
Guga passou 16 semanas primeiro do ranking, na corrida dos campeões. Parecia muito, mas não era tanto assim. Era sim, muito pouco pra quem, predestinado, maneja todos os mistérios desse apaixonante esporte que é o tênis. Exercício de solidão e desassombro.
Pela força da mente que remove montanhas; pela aura de pureza que ilumina tua figura na quadra; pela graça de teu estilo, ao mesmo tempo, lúdico e impiedoso; pelos nacos de banana que mastigas, prosaicos, nos tempos mortos da batalha; pelo triunfo irretocável que faz de ti o melhor tenista do mundo – saiba, meu caro Guga, que graças a ti, há de ser bem mais feliz o Natal do povo que tanto se orgulha de ti.

RÁPIDAS E RASTEIRAS

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