Amigos queridos que torcem pelo Flamengo vivem me perguntando como pode um time tão rico de craques acabar temporariamente eliminado da elite do futebol brasileiro. Respondo com o velho clichê: futebol tem dessas coisas. Nada, porém, que não tenha cura. O bacana do esporte é que o derrotado de hoje pode ser o vencedor de amanhã. Um momento de infortúnio costuma ser a véspera de um renascer.
A título de consolo conto um episódio que se passou com um saudoso amigo, o escritor e poeta Paulo Mendes Campos. Ele mesmo registra o fato numa saborosa crônica do livro recém-saído, chamado ‘‘O Gol é Necessário’’, da Civilização Brasileira.
A história é do ano 1956. Paulinho estava de passeio, na Suécia. O relato de Paulinho começa por uma confissão: ‘‘Não sou Flamengo desde criancinha, mas tenho pelo clube da Gávea uma dívida séria que torno pública neste escrito’’.
Conta ele que, certa noite, passou maus bocados, no saguão do hotel em que estava hospedado. Um sujeito de dois metros de altura, fortíssimo, cismou que o gerente o passara pra trás, cedendo a um amigo de Paulinho o quarto que, por direito de precedência, seria dele. O homem, enfurecido, cuspia ódio contra o gerente e contra os dois ‘‘americanos’’. O cara cismou que Paulinho e o amigo eram americanos.
‘‘Só mesmo um sueco bêbado em uma madrugada de neve e vento iria supor que fossemos americanos:’’
- American! - berrava o monstro, irado.
Durante alguns minutos, o sueco e Paulinho mantiveram um diálogo de surdos, mais ou menos assim:
- American!
- No, Brazilian!
Escreve Paulinho: ‘‘Essa versátil discussão ia levar-me ao abismo, quando, de súbito, me pareceu que a palavra ‘‘Brazilian’’ havia penetrado, por fim em sua testa granítica. Descontraindo os músculos, o gigante me perguntou:’’
- Brazil? No American? Brazil?
Paulinho que, minutos antes chegara a se imaginar morto, responde, cheio de entusiasmo e convicção:
- Yes, Brazil!
O gigante, cambaleando, aproxima-se e aponta o outro brasileiro:
- Brazil?
- Yes, Brazil, Brazil!
Subitamente, o sueco veio se chegando, em pleno estado de graça, e começa a gritar, segundo o cronista, como se saudasse um mundo novo:
- Flamengo! Flamengo!
Lembra Paulinho que, imediatamente, o sueco começou a imitar, com uma bola imaginária, as firulas típicas do jogador brasileiro. A certa, o gigante desencantado, ensaiou um passe de letra, confessando:
- I Flamengo! I Rubens! (Paulinho não revela o que revelo, agora: o Flamengo tinha jogado na Suécia, poucos anos antes, deixando por lá as lembranças de um futebol de sonho).
O sueco, agora, é só ternura. Cutucou o peito de Paulinho, tomado de uma dúvida que o brasileiro considerou perigosa:
- You Flamengo?
E Paulinho arremata a sua aventura sueca, pedindo perdão ao time do seu coração:
‘‘Que o Botafogo me perdoe, mas era um caso de vida ou morte e também gritei, descaradamente:
- Flamengo, Yes!’’

Ouro paraolímpico

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