Se vivo fosse, Garrincha teria completado, ontem, 67 anos de idade. Contemporâneo e parceiro do agora sessentão Pelé, Garrincha não teve a vida sempre risonha do companheiro. Se diferença de sorte, os distancia, ao contrário, tudo mais os aproxima, ambos heróis da libertação do futebol brasileiro, no triunfo histórico de 58, na Suécia. Até então, o nosso futebol era menosprezado no mundo inteiro.
Jamais me engajei na interminável discussão sobre qual, dos dois, seria o melhor. Sempre os considerei igualmente insuperáveis. Perderia tempo quem buscasse um quociente de conversibilidade capaz de comparar as virtudes de cada um. Quando alguém me desafiava a eleger o maior, eu preferia ficar com a minha convicção de que ambos tinham a mesma intangível dimensão dos gênios.
Garrincha era, sobretudo, o drible. Drible que todos beijaríamos, ainda que beijando o gesto fosse preciso beijar-lhe os pés.
Vinha cá na intermediária, recolhia a bola: velocidade zero. Num segundo, dava-se o arranque; um metro adiante, a espantosa explosão muscular lançava-o no espaço, por onde passava com a leveza de um passarinho: se quisesse voar, voava, nem era preciso tanto para chegar ao ninho (não existe uma história de ‘‘aninhá-la’’ no fundo das redes?). Bastava frear o corpo, retomar o embalo e, de novo, disparar pela direita –, e lá se ia por terra o equilíbrio universal dos laterais.
Saibam os matemáticos que muitas vezes ele parecia deixar no meio do caminho, às quedas, seu próprio centro de gravidade; e continuava, em pé, pela direita, fluente como uma queda d’água.
Lançado no processo do drible, transfigurava-se: era Chaplin, esculpindo no vento uma sucessão maravilhosa de gestos cômicos; era o toureiro, inventando verônicas que a multidão saudava, cantando olé; era São Francisco de Assis, engrandecido na humildade com que sofria os pontapés do desespero. Para um drible dele, a superfície de um lenço era um latifúndio.
Encerro esta minha evocação, transcrevendo trecho de uma crônica de Nelson Rodrigues que, como eu, era um grande devoto de Garrincha:
‘‘O futebol é a mais feia, a mais cruel, a mais tenebrosa das paixões. De repente, Mané apareceu. Todo o povo exultou porque o seu jogo tinha milhares de guizos radiantes. Diante dele, o torcedor esquecia a sua ira vespa e pornográfica. Só com o Mané a multidão aprendeu a rir, só com Mané a multidão deixou de ser a neurótica obscena.’’

Nasce uma líder

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