As lembranças que dele guardo, na mente e no coração, se sucedem como num filme: vejo-o, o corpo inclinado pra frente, os pés tocando a bola, céleres, um drible aqui, duas fintas adiante – era um estrépito na direção da área. Havia sempre alguém com quem tabelasse: no começo, foi Pagão, depois, seria Coutinho e, por fim, Tostão.
O melhor da cena é que, à falta de um parceiro, ele chegava, muitas vezes, a usar a perna do beque rival na vertigem de uma triangulação. Houve um gol no Benfica, no Mundial de Clubes, em que, por duas vezes, no mesmo lance, Pelé fez tabelinha com desatentas canelas portuguesas.
Pelé não tinha um pingo de sofreguidão. Era tamanha a superioridade técnica, tão notável a força física e mental que, dentro ou fora da área, atemorizava todo mundo. Daí, ter feito todo tipo de gol que alguém possa imaginar. É o que digo, em crônica escrita sobre o Gol-1000:
‘‘O gol de ação, Pelé está cansado de fazer, chutando bolas suadas, bolas amadas, bolas sangrentas, bolas mortas, bolas vívidas, bolas divididas. O gol dos deuses, desses, Pelé certamente perdeu a conta: bola no peito, três dribles verticais, um chute certeiro. O gol dos espertos, Pelé já fez: uma tarde, enlaçou o braço no braço de um beque e saiu a gritar pro juiz: Ele está me agarrando! Pênalti – Pelé cobrou e marcou.’’
Um dia, Pelé vai deixando a grande área, arrastando uma perna. O beque recebe do goleiro e sai com a bola, despreocupado, sem desconfiar que Pelé não estava machucado coisa nenhuma. Era fingimento. De repente, não mais que de repente, Pelé dá um bote, o beque toma um susto, descontrola-se, perde o domínio da bola – gol de Pelé!
Conheci Pelé, de perto, no Mundial de 58, na Suécia. Era um garoto de 17 anos, mas já dava pra perceber que despontava, ali, naquela jovem criatura, uma pessoa especial. Era eu repórter-fotográfico da revista O Cruzeiro. Quando, depois de um treino, Pelé se viu fotografado por mim, aproximou-se e me fez meia dúzia de perguntas sobre meu ofício: queria comprar uma Leica igual à minha, quis saber como se maneja um fotômetro. Concluí, logo, que aquele menino abrigava uma alma universal.
No trato pessoal, era um guri afável. Sabia conviver; tinha um jeito cordial de pedir um favor. Um dia, propôs uma conversa reservada com o chefe da delegação, o doutor Paulo Machado de Carvalho. Abriu-lhe o coração: dera uma sorte, estava namorando uma suequinha. Queria uma dispensa para ir ao cinema com ela. O problema era que o cinema só acabava às dez e meia da noite e o toque de recolher obrigava todo mundo a ir pro quarto às dez horas.
O chefe pediu um tempo. Foi sondar os mais velhos: chamou Didi, Beline e Nilton Santos. Contou o papo que tivera com Pelé.
– Que é que vocês acham? - perguntou o chefe, diplomático. Os três disseram que não viam nada demais...
– Está bem - concluiu doutor Paulo - mas tem uma coisa: isso nunca vai valer pra vocês...
No filme que a saudade projeta na minha imaginação aparecem gestos inesquecíveis: a cabeçada que Banks defendeu no Mundial de 70, o corta-luz em Mazurkiewicz, o bate-pronto no mesmo goleiro, o cósmico lençol no checo Viktor, o célebre gol de placa que não vi mas que minha memória recriou e continuará recriando e aperfeiçoando, vida afora, o meio chapéu de dimensões irreais que aplicou num varapau, no jogo contra Galles, na Copa de 58.
A coleção é infinita, como infinita há de ser a gratidão das pessoas como eu que tivemos a ventura de ver tanta coisa sublime que soube criar num campo de futebol o herói hoje reverenciado no mundo inteiro, pelos 60 anos de uma vida humana que se confunde com a vida da própria bola de futebol.
É aquilo que escrevi, há mais de trinta anos: ‘‘Se Pelé não tivesse nascido gente, teria nascido bola...’’

RÁPIDAS E RASTEIRAS