‘‘Poderoso, soberano, símbolo solar e luminoso ao extremo, a criatura em questão está imbuída de qualidades e defeitos inerentes à sua categoria. Se ele é a encarnação do poder, da sabedoria, da justiça, por outro lado, o excesso de orgulho e confiança em si mesmo faz dele o símbolo do pai, do mestre, do soberano. Ofuscado pela própria luz, transforma-se em tirano, crendo-se protetor. Portanto, tanto pode ser admirável como insuportável...’’
Estamos falando do leão, assim fielmente retratado no Dicionário de Símbolos. Em verdade, se o leitor der um bom desconto no rol de virtudes e defeitos do rei dos animais, chegará ao perfil do novo técnico da seleção. Emerson Leão tem sido um pouco de tudo isso, ao longo de sua ilustre carreira no futebol.
Quando o conheci, um menino, ainda, em 70, ele já rugia. Considerava-se um predestinado. Viajamos no mesmo avião, a caminho do Mundial do México. Entrevistei-o, durante o vôo. Foi o primeiro goleiro que ouvi contestar o velho tabu de que, no pênalti, a vítima era o goleiro. ‘‘O problema - dizia ele, em bom português - o problema é do cobrador. Ele é que não pode errar. O goleiro, se defender, vira herói; o chutador, se não fizer o gol, é execrado.’’
Confesso que foi a partir dessa conversa que despertei para a reflexão tantas vezes por mim aqui repetida: ‘O pênalti é pena de morte em que a vítima é o carrasco...’
Quebrei a cara tantas vezes que talvez não tenha mais o direito de fazer predições sobre a chegada de mais um técnico à seleção. Venho dos tempos de Zezé e Aymoré Moreira, de Flávio Costa, Feola e Brandão, de Zagallo, Parreira e Saldanha. Cada um deles era, pra mim, um angustiante enigma: o sujeito começava bem e quase sempre acabava mal.
A seleção, concluo, é a grande esfinge pronta pra devorar o treinador do momento. De uma coisa, porém, acredito ter certeza: pobre do treinador que se imaginar o dono da verdade. Seu reinado dura pouco. Não escapa um: seja no clube, seja na seleção. Por outro lado, dá-se bem o técnico que tenha tato pra conquistar a plena confiança dos jogadores. O papo de que ‘‘o grupo está unido’’, sem dúvida, hoje, é um mero clichê do futebol, mas o que ainda conta, mesmo, são a união, a motivação, o estado de espírito da equipe, a vontade una e indivisível de lutar, de vencer. O resto, como dizia Verlaine, é literatura.
Tudo que Romário faz, numa grande área, há de merecer a minha admiração. Aí, nesse universo, o moço é irrepreensível. Fora do campo, nem tudo que ele fala se deve avalizar. Há, porém, uma declaração dele que vale a pena considerar. É quando diz que, para um time dar certo, basta que o técnico não atrapalhe...
Leão é do ramo. Tem boas idéias sobre estratégias e táticas de jogo. Mas é personalista, concentrador, como, de resto, costuma ser o técnico, no Brasil e até mesmo no resto do mundo, sem exceção. Os verbos do treinador de futebol só se conjugam na primeira pessoa do singular: eu convoco, eu escalo, eu barro, etc, etc.
Dispõe, assim, Emerson Leão, de alguns pecados que podem habilitá-lo a ser um novo Wanderley Luxemburgo. A menos que o fracasso do antecessor possa lhe servir de lição. E nem adianta lembrar que haverá ao lado dele um supervisor com quem repartir o comando da seleção. O parlamentarismo, que nunca vingou no governo do Brasil, jamais vingará no governo do futebol brasileiro. O regime preferido no futebol é mesmo o presidencialismo.
A nova novela da seleção – essa é verdade – começa um tanto inquietante. A prática não bate com o ‘‘script’’. O personagem escolhido me parece distante do perfil anunciado pela CBF. A idéia não era trazer pra contracenar com Antônio Lopes alguém de estilo ameno, ‘‘low profile’’, um homem aberto ao diálogo; enfim, alguém que representasse o oposto da juba egocêntrica de Wanderley Luxemburgo? Pois o eleito é justamente um homem tipo linha-dura, de fala veemente e orgulhoso de sua vontade imperiosa: Leão.
Que não se perca pelo nome.

RÁPIDAS E RASTEIRAS

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