Chego de férias e esbarro numa pauta de assuntos simplesmente incendiária: sumiço de Wanderley Luxemburgo, Flamengo e seus craques contestados, seleção nacional aos trancos e barrancos, o pau-de-sêbo do campeonato brasileiro, o vôlei masculino atrás de novo treinador, e, por fim, o lado bom do reencontro: as moças do esporte estão mais bonitas que nunca. Pra quem está voltando de Sidney, um vasto deserto de beleza feminina, não deixa de ser reanimador.
A seleção, que será feito dela? Já a encontro nas mãos de Antônio Lopes, o supervisor, a quem a CBF diz ter confiado plenos poderes. Sobre quem, sobre o que, ainda, não se sabe direito. Pelo menos, ninguém diz, claramente, quais os deveres e prerrogativas do treinador. É ele que convoca? É ele que escala a seleção? Ou, daqui pra frente, as duas decisões passarão a ser colegiadas?
A última experiência de gestão compartida, que eu saiba, foi a de Parreira e Zagallo em 94. Ali, se a convocação parecia se fazer por consenso, a escalação era responsabilidade exclusiva de Parreira, mas Zagallo opinava, trocava idéias sobre como deveria jogar a equipe, de um adversário pro outro. Sucede, porém, que Zagallo e Parreira eram e são até hoje como irmãos. Os dois se descobriram no mundial de 70, trabalharam juntos, no Oriente Médio. Enfim, estavam ligados por laços de sólida amizade. Eram parceiros de fé. É o caso de perguntar: quem seria a alma-gêmea de Antônio Lopes? Sem as chamadas afinidades de espírito, o risco de dar errado é muito grande.
Tempos atrás, a seleção passou dois mundiais, comandada por uma autêntica comissão técnica. Foi no período 58-62. Convocação e escalação eram sempre fruto de uma votação de que participavam o supervisor Carlos Nascimento, o treinador Vicente Feola (posteriormente, Aymoré Moreira), o médico Hilton Gosling, o preparador físico Paulo Amaral e o assessor-técnico Ernesto Santos. É bem verdade que, à sombra do corpo técnico, havia um poder mais alto chamado Paulo Machado de Carvalho que era o chefe da delegação. O homem fazia, como ninguém, a ponte secreta entre os craques da equipe e a comissão. Foi por aí que jogadores como Didi, Beline, Nilton Santos acabariam abrindo caminho pra escalação de Garrincha, até então mantido na reserva de Joel. Era Garrincha, como escreveria um jornal sueco, ‘‘o maior reserva do mundo...’’
Que venha, logo, uma descrição de funções, incluindo diretor de seleção, supervisor-técnico e treinador. Quem faz o quê nesse tempestuoso barco. Ainda assim, não será fácil desidratar a figura do treinador, sobretudo se convocação e escalação continuarem a correr por vontade única do técnico, como é da praxe mundial. A verdade é que a simples mímica do poder já é, em si, um fator de alienação do homem no futebol como na própria vida. O poder, propriamente dito, esse, então, põe a perder a mais franciscana das criaturas.
Wanderley Luxemburgo chegou à seleção, cercado de especialistas de toda ordem: técnicos, preparadores, fisiologistas, médicos, psicólogo. Me lembro de vê-los, entrando em fila no ônibus da CBF. Não era uma comissão, era uma procissão. Deu em que? Pouco tempo depois, a seleção se converteria em propriedade pessoal do técnico Wanderley Luxemburgo, justamente porque não havia um documento dizendo, claramente, quem era quem no latifúndio da seleção. Luxemburgo já era, então, uma pessoa embalada pelos ventos traiçoeiros da fama e da fortuna.
O desfecho não poderia ter sido outro: Wanderley Luxemburgo passou a se considerar a pessoa mais inteligente, a mais bem vestida e a mais invejada do Brasil. Narciso morreria de inveja.
Resultado: tanto cresceu-lhe o ego / Que o rapaz acabou cego...

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