SYDNEY – O tênis olímpico feminino acabou na mais perfeita coerência: vitória da melhor jogadora do mundo, a moça que não refresca um só golpe; que agride, implacavelmente, em qualquer troca de bolas. Vênus Williams acaba de completar um estirão de 12 partidas, sem sequer tomar susto. Nessa dúzia de jogos, incluem-se duas finais de Grand Slam – Wimbledon e US Open.
Steffi Graf talvez não tenha imaginado que sua coroa cairia em mãos tão hábeis e tão poderosas. Vênus alia potência à precisão, desfrutando um binômio raríssimo no circuito feminino. A própria Steffi Graf, no esplendor físico, técnico e mental, não tinha a unanimidade de golpes que tem revelado a sucessora. Graf dominava o revés, mas desde que fosse de ‘‘slice’’. A execução era sempre perfeita, mas, em vez de subir na esteira do golpe, Graf mantinha-se na linha de base, facilitando a vida da rival.
Vênus não tem o golpe de efeito-contra. Talvez nem tivesse a devida serenidade pra tanto. Vale-se, então, de uma bazuca tão perfurante quanto a de direita.
Francamente, o tênis dessa moça não é desse planeta.
Celeiro olímpico
A Austrália nunca foi uma potência olímpica. Nos jogos de 1976, em Montreal, a equipe canguru só não saiu de mãos abanando porque conseguiu emplacar quatro ou cinco medalhas. Mas fez um juramento: em 20 anos, as coisas teriam que mudar. E, de fato, mudaram. Com a participação do poder público e das entidades esportivas, criou-se neste país um centro de formação de atletas. É o Instituto Australiano de Esportes. Uma fantástica usina de criação de talentos esportivos.
Hoje, a Austrália está honrando o seu papel de anfitriã dos Jogos do Milênio. Colhe medalhas seja nas pistas atléticas, seja nas piscinas, seja nas quadras, seja nos campos.
O Brasil bem que podia se inspirar no exemplo edificante da Austrália. A questão é de dimensão política e social. Acho simplesmente deplorável o menosprezo com que o poder público e as entidades esportivas tratam a vocação esportiva de nossa garotada.
A Austrália está provando que no esporte, como na vida, querer é poder.
Beleza é fundamental
Vinícius já dizia – dizia e provava ... – que a beleza é fundamental. Nos Jogos Olímpicos, sobrelevam corpos e rostos intocáveis de moças em flor. Uma delas se chama Maurizia Cacciatori. É italiana e joga na seleção de vôlei, ao lado da silhueta não menos bela da atacante Piccinini.
Cacciatori, reverenciada como princesa no reino da Vila Olímpica, já recebeu propostas milionárias pra fazer publicidade. A Nike a incluiu numa campanha de exaltação da beleza e do glamour olímpico. O projeto se chama ‘‘Objetos de desejo’’. Ela recebe cerca de 200 e-mails por dia, na Vila.
O jornal ‘‘The Weekend Australian’’ escreve sobre Cacciatori: ‘‘O charme dela só se compara ao da tenista Ana Kournikova, com uma vantagem sobre a russa: Cacciatori joga...’’
No dia em que a seleção italiana foi eliminada dos jogos, a legião masculina da Vila Olímpica improvisou um mastro e hasteou uma bandeira a meio-pau.
DICAS OLÍMPICAS
- Uma imprudência do médico custou à ginasta Andreea Raducan o cachê de 15 mil dólares americanos que é quanto ganha o vencedor da medalha de ouro, na delegação romena. O irresponsável receitou um descongestionante nasal com efedrina. Se eu fosse o pai de Andreea metia um processo nesse irresponsável.
- Não encontro um só brasileiro que não me pergunte quanto custou à CBF o colossal piquenique da delegação de futebol nos arraiás de Brisbane. Acontece que a viúva é rica e sempre viveu à tripa forra.
- A equipe australiana recebeu a assistência psicológica antes e durante os Jogos. Eram 30 profissionais cuidando da cabecinha dos atletas, com ênfase nos exercícios de concentração, de mentalização e de motivação.
- Por falar em trabalho mental, achei que as três duplas brasileiras de praia não resistiram à pressão da torcida australiana. Até a quase sempre imperturbável Shelda fraquejou mentalmente na hora de fechar o set.
- Cathy Freeman não se rendeu ao cerco do comando australiano que tentou impedi-la de dar uma volta olímpica com a bandeira da sua tribo. Freeman, que já tinha contrariado os cartolas no Mundial e em dois Grand Prix, celebrou a medalha, enrolada na bandeira australiana e na bandeira aborígine.
- O suíço Sepp Blatter, presidente da FIFA, não desistiu de fazer a Copa do Mundo de dois em dois anos. Seria, segundo ele, a maneira de aumentar a chance de continentes como a Oceania. Blatter não gosta do critério de rodízio de confederações. Prefere a velha solução política de escolher a sede pelos belos olhos do candidato.
- O Comitê Olímpico dos Estados Unidos faz o que bem quer e entende, em matéria de doping. O próprio COI admite que os americanos protegem os seus atletas apanhados em pecado de doping.
- A história da mulher nos Jogos é uma odisséia. Começou na Maratona de 1896. Ela foi barrada na maratona de Atenas. Ainda assim, duas moças correram, clandestinamente. Uma jovem grega chamada Melpomene correu 42 quilômetros entre a região mítica de Maratona e Olímpia. Só anos depois, muitos anos depois, a mulher foi admitida oficialmente nas Olimpíadas.

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