Na Grande Área - Armando Nogueira
SYDNEY Marion Jones não pensa noutra coisa: levar cinco medalhas de ouro. Seria a consumação do sonho que se perdeu nos passos saudosos de Florence Griffith-Joyner. O desafio é gigantesco. Até agora, nenhuma mulher alcançou a glória de tantas medalhas de ouro na mesma competição.
Em Sydney, a bela velocista terá que correr dez vezes, incluindo as classificatórias. Marion Jones disputa duas etapas nos 200 metros, além da eliminatória do salto em distância. Haja pernas! Dia 30, no mesmo embalo, Marion disputará as finais de dois revezamentos: o 4 x 100 e o 4 x 400 metros. Nada mais extenuante, física e mentalmente. No fim, a diferença entre o sucesso e o fracasso de Marion se conta por medidas infinitesimais: um centímetro no salto em altura, um décimo de segundo nos dois revezamentos. É o próprio pesadelo no vácuo de um grande sonho.
Miss Jones me emocionou na prova dos 100 metros, a mais nobre história da velocidade olímpica. Ao vê-la em pé, na hora da verdade, tive a sensação de que a corrida de 100 metros é um ato de transfiguração. Ela se concentra. O olhar se perde ao longo das paralelas da raia. Perfila-se. Primeiro é a revelação da alma que povoa de entusiasmo o corpo são templo repleto de inumeráveis deuses.
Sobrevém, então, o rito do corpo: o rosto contrito, penitente, segredando orações. Por fim, a centelha do reflexo, prenúncio da explosão muscular. A energia desatada que precede a ação. O corpo projetado, em aceleração prodigiosa. Marion Jones já não respira. Já não pensa. Ela transcende o esforço na face estremecida. Marion flutua, intangível, como o tempo seu tormento e sua fortuna.
Entre a dor e a glória





