SYDNEY - Marcelo é brasileiro, Ana é argentina, Lin é chinesa. Todos três vivem o fulgor dos 20 anos. Estudam e pegam ondas nas praias australianas. Hoje, são milhares; amanhã, serão milhões. Cada jovem que se dá bem por aqui atrai, pelo menos, outros dois.
  O fascínio da terra é irresistível. Tal como as pessoas, os países também têm carisma. A Austrália é um lugar de muito charme. A paisagem é deslumbrante, as pessoas afetuosas, a terra transpira otimismo. Quanta coisa torna risonha a vida australiana. Só pode ser esse astral que seduz tanta gente moça. Gente que vem remoçar ainda mais este jovem país dos mares do sul.
  Marcelo já decidiu: veio pra ficar. Descobriu que o país do futuro é aqui mesmo. Daqui a pouco, Marcelo será doutor em marketing. O visto permanente já está no papo. O truque é conhecido: namora-se uma australiana, casa-se de mentirinha: se der certo, funda-se uma família; se der errado, adeus.
  Se um dia a ONU fizer um concurso pra eleger o paraíso terrestre, este país será favorito disparado.
  Duvido que haja alguém desencantado com a Austrália. A chegada a Sydney, de avião ou de barco, é uma poética revelação: a baía, os braços de mar, as enseadas do mar cristalino – tudo é tão bonito, tudo é tão acolhedor, tudo é tão deslumbrante.
  Aí, você desembarca e vai conhecer uma gente muito legal. A rainha Elisabeth que não nos ouça, mas o australiano que aceita, docemente, a soberania do Reino Unido muito pouco tem a ver com a cara fechada do britânico. Ninguém aqui tem medo de ser feliz. Talvez, mais legítimo ancestral do povo australiano seja um certo capitão Cook.
  Precisamente no ano de 1768 ele navegava por aqui, assuntando. Estava em missão do almirantado britânico. Primeiro, Cook descobriu o Taiti, depois bordejou a Nova Zelândia e, por fim, chegou onde queria mesmo chegar que era Botany Bay. A idéia era apossar-se do que as cartas náuticas de então chamavam de Nova Gales do Sul. Um lugar de ouro abundante.
  O capitão Cook era uma pessoa sensível. Dá pra sentir na carta que ele escreveu, falando dos indígenas que chamava de nobres selvagens: Eles podem parecer o povo mais desventurado da face da terra, mas, na realidade, eles são muito mais felizes que os europeus. Desprezam o supérfluo. O mar e a terra dão-lhes todas as coisas realmente essenciais à vida. As roupas que demos a eles ficaram penduradas nas árvores e espalhadas pela praia. Os nativos preferem viver nus, como os pássaros e os animais que com eles dividem as delícias do lugar.
  Muita coisa mudou em cerca de 200 anos. Uma coisa, porém, o povo australiano herdou de seus ancestrais: o fervor com que celebram os prodígios da natureza.
  Ana, Marcelo e Lin, certamente, nunca leram a carta do capitão Cook, mas é como se tivessem lido.

Patos no pedaço...

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