SYDNEY - Conheço um jornalista australiano. Gente boa. Quando dá, batemos um papo. Ele me ilustra sobre a terra dele; eu dou dicas sobre a minha. Kelly conhece alguns rapazes que vieram do Brasil, atraídos pelo fascínio do surfe. A Austrália é a pátria das ondas, como vocês sabem. A tal ponto que o surfe, aqui, é matéria de currículo escolar.
Volta e meia, a moçada do surfe surpreende os australianos com atitudes da mais pura invenção. Kelly me diz que fica de queixo caído com a astúcia dos nossos surfistas. Complicou, aparece sempre alguém com uma solução impensável. É o célebre jeitinho brasileiro.
Não sou bom de sociologia pra explicar a meu amigo, em linguagem científica, o que vem a ser o jeitinho brasileiro. Conto-lhe, então, a história do Marcelo Bacalhau, um editor de imagens da equipe do Sportv.
A Olimpíada de Sydney marca a estréia internacional de Bacalhau. Nada, porém, o embasbaca por aqui. A língua, o hotel de primeira, as lourinhas graciosas que servem o café da manh㠖 tudo isso o meu amigo Bacalhau está tirando de letra. Ele circula pela cidade de Sydney como se estivesse batendo pernas no bairro carioca do Méier, onde mora.
No segundo dia de Sydney, Bacalhau acabou de trabalhar tarde da noite. Estava morrendo de fome e não tinha onde comer. A cidade é austera, dorme cedo. Onze horas não tem mais restaurante aberto.
Solitário e faminto, Bacalhau abre a geladeira, movido por um ímpeto de sobrevivência. Afinal, sortimento do frigobar, pra comer, só tem barrinhas de chocolate que não enchem a barriga de ninguém. Sem contar que custam os olhos da cara.
Bacalhau não acredita. Na prateleira, olhando pra ele, oferecido, a figura bíblica de um pão. Apanha-o. Afaga-o, cristãmente. Congelado, é verdade. Incomível, é verdade. No mesmo momento, Bacalhau se lembra que sobrara do café um pedaço de queijo e um naco de presunto.
Pensa, um tanto desconsolado: ah, se tivesse aqui uma torradeira! Não tem. Mas tem ferro de engomar!
Passou a ferro o pãozinho, depois enfiou o queijo e o presunto. Comeu, com um berro de prazer, o melhor misto-quente de sua vida.
É o jeitinho brasileiro.
Bom começo
O futebol olímpico feminino abriu os jogos de Sydney, pode-se dizer, com o pé direito. Dois jogos, duas forças que despontam: Brasil e Alemanha. Por sinal, as duas vão se encontrar, já na segunda rodada. Brasil x Suécia teve mais graça, principalmente, pela franqueza das equipes. Deu Brasil, mas a Suécia foi parelha e só não converteu, em três lances, porque a goleira Andreia não deixou. Fez defesas da melhor envergadura. Boa de bola essa moça, a quem eu tinha visto jogar na Copa Ouro, nos Estados Unidos.
O torneio feminino, talvez, seja mais equilibrado, por cima, que o masculino. Além dos Estados Unidos, favorito absoluto, disputam medalha o Brasil, a China e a Dinamarca.
Bom começo, sem dúvida.
DICAS OLÍMPICAS
- O nadador russo Alexander Popov recusa-se a nadar de maiô de corpo inteiro, já batizado de pele de tubarão. Diz ele, com uma ponta de auto-suficiência, ‘‘Eu prefiro confiar na minha própria pele...’’
- Maria Paula foi ver o amistoso de basquete Brasil x Austrália. Achou as equipes extremamente tensas. Sobretudo, a australiana. Paula está comentando basquete no Sportv.
- Nos últimos dias, tem soprado um noroeste de rachar, aqui em Sydney. Já chegou a zunir até 45 quilômetros por hora. A vela de Robert Scheidt vai ter muito o que rebolar.
- A semana da natação está batendo todos os recordes de bilheteria dos Jogos. Ginásio lotado, diariamente. O segredo? A esperança australiana de arrebentar na maioria das provas, masculinas e femininas.
- Um sonho no tabuleiro: o xadrez gostaria de entrar nos jogos. O COI até que reconhece o xadrez como esporte, mas sem valer medalha. O diabo é que os ‘‘pop-stars’’ do tabuleiro gostam de jogar, tomando café a partida inteira. Quer dizer, com rios de cafeína no sangue, não há quem passe no exame antidoping.
- Ian Thorpe, a maior estrela da natação olímpica, no momento, diz que nadar na própria casa é uma faca de dois gumes: se você não estiver seguro, confiante, a pressão da torcida funciona contra.
- A Austrália está a um passo de entrar no clube fechado dos 10 países que mais medalhas conquistaram na história olímpica. Hoje, o anfitrião dos Jogos está em 12º lugar, com um total de 280 medalhas, das quais, 84 de ouro. Daqui a 15 dias, a conta vai subir, com toda a certeza. Ninguém se preparou com tamanho rigor como a Austrália.
- O técnico de Fernando Scherer, o americano Michael Lohberg, dá uma declaração absolutamente chocante: ‘‘Quem não se dopar não ganha medalha.’’ De duas, uma: ou é uma tremenda bandeira ou o homem sabe demais sobre os bastidores da natação mundial.
- A principal jogadora da seleção feminina de futebol dos Estados Unidos, a atacante Mia Hamm, foi colega de Michael Jordan, nos tempos universitários.

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