NA GRANDE ÁREA - Armando Nogueira
Jogadores há que devem muito à seleção. Não são poucos os que ganharam fama e fortuna, graças ao privilégio de vestir a camisa que o torcedor chama, com afeto, de amarelinha. Vivem na sombra da mediocridade e, um belo dia, despontam no Maracanã, consagrados, em alta no mercado, mesmo antes de dar um passe, um drible ou de fazer o gol que jamais farão.
Outros há, pelo contrário, aos quais muito deve a seleção. Não são tantos os que, por ela, já deram muito suor e muito talento. Romário é um deles.
Quem não se lembra das eliminatórias de 94? A seleção, a perigo, classifica-não-classifica, e eis que a voz do povo começa a clamar por ele. Parreira não o convocara. Romário dera um faniquito, em Porto Alegre, rebelando-se contra a condição de reserva. Achava uma desconsideração o trazerem de tão longe (jogava no Barcelona) pra ser suplente num amistoso em Porto Alegre.
Acontece que a seleção estava com as calças na mão. Precisava, dramaticamente, de uma vitória. O adversário seria o Uruguai, indigesto fantasma do Maracanã. O jeito era apelar pra Romário. O resto da novela todos sabem: o moço desembarca a mil e, pra variar, abusado como sempre, diz uma frase que acaba ficando célebre: Deixa comigo que eu resolvo! E resolveu, mesmo.
Pois, agora, a história se repete, direitinho. Luxemburgo, com a corda no pescoço, pede uma mãozinha a Romário. Não seja por isso: deixa comigo que eu resolvo! E não deu outra. Com três piparotes, Romário acaba com a Bolívia, o que não chega a ser grande coisa porque a Bolívia, em matéria de futebol, é o mesmo que zero à esquerda. Mas, pouco importa. Quem tirou a vaca do brejo foi ele.
Tal como em 94, Romário pintou o sete, no Maracanã. Dessa vez, ele foi até mais longe: já começou o jogo, mandando na equipe. Falava, berrava, gesticulava, desbancando, ostensivamente, o próprio treinador. Pra culminar, quando fez o seu terceiro gol, Romário correu à beira do campo pra abraçar Wanderley que, encolhido no banco, crista baixa, assistia ao recital de Romário. Lembrava o Gene Kelly, no inesquecível Cantando na chuva...
Qual terá sido a inspiração daquele abraço inesperado? Romário passara a semana, disparando perfídias contra o técnico, por ter sido barrado da seleção olímpica. Será que não era um lance da mais refinada ironia? Afinal, no mesmo momento, lá em cima, na tribuna de Maracanã, sua mãe exibia um cartaz que dizia assim: Obrigado, Wanderley por não levar Romário na seleção olímpica.
Wanderley pode até escapar dos demônios de Renata, a secretária sinistra, mas não se livrará tão cedo de Romário, de quem acabou virando refém, pelo menos, até o fim da Olimpíada...
O PESO DE JANETH





